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Expansão de ciclovias impulsiona o turismo de bicicleta em São Paulo

Vivian Reis
Do G1, em São Paulo

Com cada vez mais quilômetros de ciclovias por São Paulo, os turistas, e também moradores que querem ver a cidade por outro ângulo, estão desbravando a capital sobre duas rodas em passeios oferecidos por agências de turismo. Elas apostam no forte apelo de marketing das bicicletas após a boa recepção dos paulistanos ao aumento das vias para ciclistas.

Desde junho estão sendo inauguradas novas ciclovias, e a cidade tem hoje 183,3 km de vias para bicicletas, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). A meta da Prefeitura de São Paulo é entregar um total de 400 km de novas ciclovias até o final de 2015. Os passeios oferecidos pelas agências já utilizam essas rotas, mas os trajetos não ficam restritos às ciclovias.

O aumento de ciclovias na cidade causou polêmica e debates acalorados nas redes sociais. Em meio à comemoração dos cicloativistas, comerciantes reivindicam calçadas livres para receber mercadorias, motoristas questionam o impacto no trânsito e moradores se preocupam com a falta de vagas para estacionar.

Mas pesquisa realizada pelo Ibope apontou que 88% dos paulistanos são favoráveis à criação de mais ciclovias na cidade. “O investimento nas ciclovias abriu um nicho de mercado, mas a curto prazo contamos mais com o marketing que ele oferece do que com o lucro”, afirma Gustavo Angimahtz, fundador da agência Pediverde.

(…)

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Um correspondente (de bike) em São Paulo

O jornalista Vincent Bevins, correspondente do Los Angeles Times no Brasil, relatou via Twitter uma experiência interessante vivida em São Paulo na semana passada.

vinbev

Em tradução livre:

Na noite passada tentei ir de bicicleta a um restaurante de classe média em São Paulo. Fui tratado como se estivesse com uma bomba. O restaurante não queria de jeito nenhum que minha bicicleta ficasse à vista ou fosse deixada em qualquer lugar próximo ao estabelecimento. Era como se eu fosse um perigoso bolchevique. Em Londres, sempre pedalei do trabalho, no Financial Times, até o St. John.

O delírio da imprensa carrista

Enquanto cidades de todo o mundo, das maiores metrópoles a bucólicos recantos, repensam suas opções de mobilidade, no Brasil o jornal O Estado de S. Paulo, em pleno julho de 2014, ainda tenta incentivar o divisionismo, com um editorial (“Ter carro já é quase um crime”) em que denuncia “uma política deliberada para desestimular o uso de carros em São Paulo”.

A cultura do carrismo é tema de muitos estudos e artigos (leia um aqui), mas, pela sinceridade, alguns pontos do texto do Estado merecem comentários específicos.

Esse aumento de custos, porém, não deverá desestimular os motoristas a deixarem o carro em casa simplesmente porque, apesar de todo o esforço marqueteiro da Prefeitura, o serviço de ônibus na cidade continua muito ruim.

O mote inicial do editorial é que o aumento do preço dos cartões de estacionamento na Zona Azul vai ferrar a vida dos motoristas. No entanto, antes da metade do texto, o Estado já admite que ninguém vai deixar de usar o carro por causa disso.

É óbvio que, se muita gente usa o carro “por necessidade”, qualquer aumento de custo dessa opção – estacionamento, combustível, manutenção, preço do veículo – tende a ser excludente. Em termos mais claros: o primeiro a ser obrigado a desistir do carro, ou pelo menos a sentir mais no bolso, é o pobre. Mas será o pobre a vítima da Prefeitura? É o pobre que o editorial está defendendo?

(…) o número de passageiros e de viagens de ônibus não cresceu na proporção que se esperava ante o sacrifício imposto à cidade na forma de grandes congestionamentos, causados em parte pelas faixas exclusivas de ônibus.

Outro alvo do jornal são as faixas exclusivas para ônibus. O interessante aqui é a vítima das faixas: “a cidade”. A velocidade médias dos ônibus teria subido 1 km/h, “muito pouco” nos termos do editorial, mas ainda assim a vítima é “a cidade”, ou seja, todos.

A liberdade automotiva em São Paulo. Foto: CET-SP.

A liberdade automotiva em São Paulo. Foto: CET-SP.

(…) a administração petista anunciou que pretende construir 400 km de ciclovias, o que deverá resultar na supressão de até 40 mil vagas de estacionamento pela cidade. Mais uma vez o improviso se impõe, pois não foi apresentado nenhum estudo de viabilidade.

Como os exemplos de várias cidades demonstram, projetos mirabolantes de ciclovias podem trazer problemas de todo tipo, como risco ao ciclista, falta de integração com outros modais, falhas na execução e, sim, até prejuízos desnecessários ao trânsito motorizado. Mas o foco do jornal é bem direcionado: vagas de estacionamento. É essa a viabilidade que precisa ser demonstrada.

A intenção evidente é permitir que Haddad e seu time de secretários criativos possam posar de defensores dos “sem-carro”, o que pode pegar bem como propaganda, mas é terrível para a cidade.

Já no fim do texto, o jornal chuta o balde e chama o cidadão, incluído aí seu leitor, de idiota intelectualmente prejudicado. A política da Prefeitura, de acordo com a análise, “pode pegar bem como propaganda”, por um lado, “mas é terrível para a cidade”, pelo outro. Ou seja, o morador é trouxa, não vê um palmo adiante.

E, aqui, não dá nem para botar a culpa no pobre, que, como é de conhecimento geral, “não sabe votar”. O pobre, afinal, sempre andou de bicicleta, mesmo se arriscando em vias sem a menor infraestrutura para recebê-lo. A ciclovia não é prioritariamente para ele; é também, ou principalmente, para quem tem ou pode ter um carro.

A administração municipal decidiu tratar os motoristas de carros como párias, pois nenhuma decisão a respeito do transporte na cidade tem levado em conta que um terço do transporte na cidade tem levado em conta que um terço dos deslocamentos é feito por esse meio.

Até o Estado de S. Paulo sabe que qualquer política de mobilidade deve levar em conta todos os modais – e qualquer governo democrático deve respeitar os interesses e direitos de todos os grupos. Mas é impossível não perguntar: se “um terço dos deslocamentos é feito por esse meio”, é correto dedicar sempre a maior parte do espaço, dos recursos e dos esforços ao transporte individual motorizado?

Um relato sobre o World Bike Tour de São Paulo

O Leandro M.D. deixou relatos sobre o World Bike Tour de São Paulo, que, depois de um adiamento na véspera, ocorreu no domingo (2) em São Paulo. Matéria da Band descreve um cenário de muita confusão e desrespeito aos participantes, mas o Leandro passa informações mais detalhadas, do ponto de vida de quem vinha acompanhando havia tempos as peripécias dos organizadores.

Ele, já sabendo dos problemas na organização, decidiu apenas pegar a bicicleta (pela qual pagou com muita antecedência) e não participar do passeio. Nos comentários das matérias da Band e da Globo podem ser conferidos outros relatos igualmente indignados.

(Os textos são exatamente os publicados nos comentários. Os destaques, em negrito, são meus.)

Por sorte (sorte mesmo), consegui a bicicleta, e em um tempo não tão ruim – mas muitas pessoas, não!

E, obviamente, peguei a magrela e fui embora! Antes de começar a “largada”, eu já estava em casa, pois eu tinha outro compromisso….

Muita desorganização para pegar bicicleta, realmente, dei SORTE em pegar a área verde e pegar uma bicicleta mais ou menos boa – com direito a escolher a bike que eu queria (descartei uma com garfo frouxo e outra com corrente solta), com o “luxo” de deixar duas pessoas pegarem na minha frente (tipo “por favor, você primeiro, pode pegar”) e ainda uma pessoa me ajudar a pegar a minha bike, pois tinha 2 bikes na frente.

Notem: foi SORTE!

Quando cheguei lá nessa área, a ponte estava dividida em 2 partes: uma fila indiana (um atrás do outro) à direita e uma massa meio organizada meio muvucada à esquerda. Subi no bolo e peguei minha bike e desci pelo mesmo caminho que subi.

Mas conforme fui descendo, fui avisando para os coitados desavisados na fila indiana: “pessoal, não tem fila, estão pegando a bike lá em cima”. Quando cheguei no começo da ponte, olhei para trás e não havia mais fila indiana, só o bolo massivo. Por um lado, se “causei”, por outro lado livrei muita gente de ficar “morgando” na fila à toa…”

Para a Globo (UM DOS PATROCINADORES), nada de relatar sobre os problemas que aconteceram, né?

Engraçado a Globo só colocar fotos bonitas, e não colocar cenas lastimáveis como:

* pessoas não inscritas simplesmente roubando mais de 2 ou 3 bicicletas;
* uma mulher chorando com um quadro desmontado na mão;
* um dos funcionários dizendo que “tanto faz você subir com ou sem identificação, pois não tem bicicleta para todo mundo mesmo”;
* filas desorganizadas sobre a ponte; etc.

Na minha opinião, esse “grupo reduzido de ciclistas” deveria ter tomado vergonha na cara e ter sido solidário com o resto do pessoal e não ter participado. Mas cada um escolher ser egoísta, não podemos interferir nesse direito.

Durante os últimos dias falei várias e várias vezes: vamos simplesmente pegar as bikes e ir embora, boicote mesmo, esse evento não iria dar certo, mas muitos tinham uma “esperança ingênua otimista”.

Eis os tais VIPs (com identificação diferente da nossa, número de peito amarelo ao invés de branco, bicicletas com os nomes e “esperando” por eles em lugares pré-determinados):

E a própria Globo depois fala sobre “Ciclistas reclamam das bicicletas entregues no World Bike Tour de 2014″.

Completando: eu fui com uma camiseta preta por cima da oficial, eu não queria mesmo usar a camiseta do evento, há dias eu estava falando sobre isso como forma de “protesto”.

Mas, realmente e infelizmente, fiquei com tanto receio de mais m*rda acontecer, que acabei tirando a minha camiseta preta e preferi usar a tal camiseta do evento com a numeração no peito (pelo menos enquanto estava na ponte para pegar minha bike). Fiquei com medo de ser confundido com os penetras que estavam catando bike. Inclusive quando saí da ponte e peguei a avenida, passei por dois PMs que ficaram meio que me encarando, e foi tenso.

E minha camiseta estava meio que “personalizada”: um grande XIS em cima do símbolo da globo, e um “JÁ FOI” em cima da numeração onde estava escrito “parabéns São Paulo”.

E peguei o trem de volta para casa com a camiseta do evento de propósito, e isso perto das 8h ainda, pois queria pegar contra-fluxo do pessoal que estava indo para o evento ainda, e muitos perceberem que eu era uma pessoa do WBT que simplesmente abandonou o evento. Alguns até me perguntaram sobre o evento que iriam participar, e eu não economizei críticas e conselhos.

Depois que saí do metrô, coloquei a camiseta preta de novo e fui pedalar até em casa.

Feliz 91

E aconteceu. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) da cidade de São Paulo anunciou ter multado, de 14 de maio a 14 de junho, 91 motoristas por colocar ciclistas em risco. A ordem para a “tolerância zero” foi dada em abril pelo prefeito Gilberto Kassab.

Segundo a CET, conforme o prometido, os motoristas foram enquadrados nos artigos 169, 197 e 200 do Código de Trânsito Brasileiro:

Art. 169. Dirigir sem atenção ou sem os cuidados indispensáveis à segurança (infração leve)

Art. 197. Deixar de deslocar, com antecedência, o veículo para a faixa mais à esquerda ou mais à direita, dentro da respectiva mão de direção, quando for manobrar para um desses lados (infração média)

Art. 220. Deixar de reduzir a velocidade do veículo de forma compatível com a segurança do trânsito:

XIII – ao ultrapassar ciclista (infração grave)

A Prefeitura e a CET não explicaram, como não haviam feito em abril, por que só agora resolveram aplicar a lei, que vigora desde 1998. Tampouco esclareceram como conseguem “comprovar” essas condutas e não conseguem comprovar o desrespeito à distância mínima de um metro e meio na ultrapassagem (Art. 201) – infração que nunca resultou em aplicação de multa pela CET.

Mas, se o negócio é comemorar, comemoremos.

Lei e lei

Os sites dos dois maiores jornais de São Paulo anunciavam já na tarde de quinta-feira (5):

Motorista que fechar bicicletas será multado em SP (O Estado de S. Paulo)

Prefeitura de SP vai punir motorista que puser ciclista em risco (Folha de S. Paulo)

Em outras palavras: o prefeito Gilberto Kassab determinou que a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) aplique a lei de trânsito. De acordo com as matérias, serão usados dois artigos do Código de Trânsito Brasileiro, lei em vigor desde… janeiro de 1998.

O art. 169 considera infração leve “dirigir sem atenção ou sem os cuidados indispensáveis à segurança”. Já o art. 197 classifica como infração média “deixar de deslocar, com antecedência, o veículo para a faixa mais à esquerda ou mais à direita, dentro da respectiva mão de direção, quando for manobrar para um desses lados”.

Sobre o dispositivo do CTB de aplicação mais óbvia numa situação de fechada ou “fina educativa”, o art. 201 (“deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta”, infração média), a CET alega que nunca pôde aplicá-lo por “não ter como comprovar” o desrespeito à distância de 1,5 metro.

Resta saber como a companhia que não consegue comprovar uma distância objetiva entre dois veículos – apesar de dispor de câmeras fotográficas – vai comprovar o “dirigir sem atenção” ou o “deixar de deslocar com antecedência”.

Resolução “impede” bikes em ônibus

Depois de quase um ano, a Secretaria Municipal dos Transportes da cidade de São Paulo anunciou a interrupção do projeto que permitiria o transporte de bicicletas na frente de ônibus, genericamente conhecido como Bike Bus. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o obstáculo alegado é a Resolução 349 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que só prevê o transporte na “parte posterior externa” (atrás) ou sobre o teto.

O curioso é que a referida resolução “dispõe sobre o transporte eventual de cargas ou de bicicletas nos veículos classificados nas espécies automóvel, caminhonete, camioneta e utilitário”. Não há, como se vê, qualquer referência a ônibus.