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Obediência civil

Não sou o maior fã de ativistas que buscam o confronto permanente como maneira de “conscientizar” a população. No entanto, é inegável que a passividade também não resolve nada; pelo contrário, incentiva os infratores a prosseguir no desrespeito às leis, à convivência pacífica e à civilidade.

O vídeo abaixo mostra a ação de ciclistas de Brasília que simplesmente resolveram impedir o trânsito irregular de automóveis pela ciclofaixa. Mais (re)ações desse tipo talvez ajudassem a mudar o vale-tudo de nossas ruas e estradas.

Dúvida existencial

Depois de assistir ao documentário Still we ride e ao vídeo de uma altercação durante a Bicicletada de Blumenau, fiquei a pensar num ponto polêmico, freqüentemente lembrado por autoridades policiais quando desejam interromper ameaçadores passeios de bicicleta. Afinal, pedalar em grupo, ocupando a faixa de rolagem inteira, é uma infração de trânsito?

O Código de Trânsito Brasileiro não deixa muita dúvida:

Art. 247. Deixar de conduzir pelo bordo da pista de rolamento, em fila única, os veículos de tração ou propulsão humana e os de tração animal, sempre que não houver acostamento ou faixa a eles destinados:

Infração – média;

Penalidade – multa.

E aí? Passeios em grupo, bicicletadas e assemelhados são exercícios legítimos dos direitos de reunião e manifestação? São um desrespeito à lei de trânsito? São um caso à parte?

Mais legislação aqui, aqui e aqui.

Ameaçadores

Antes do comentário atrasado, sobre incidente ocorrido no domingo passado (12), confiram o relato de Maria Fernanda Seixas, do Correio Braziliense, publicado sob o título “Confusão no Eixão do Lazer”.

Uma manobra errada realizada em um dos acessos ao Eixão do Lazer terminou em briga e confusão na tarde de ontem. A discussão acabou na delegacia depois que grupo de ciclistas se assustou com um carro na contramão e cobrou explicações do motorista. O condutor, morador de Minas Gerais, ainda levou um soco no rosto de um homem mais exaltado. O incidente ocorreu por volta das 16h, horário proibido para a circulação de carros em uma das vias mais movimentadas do Distrito Federal durante a semana.

Os cinco ciclistas envolvidos na confusão – todos ativistas de movimentos em prol da segurança dos ciclistas e membros da ONG Rodas da Paz – disseram à polícia que seguiram em direção ao Fox preto do assessor de imprensa Jerson Lima, 50 anos, assim que o viram invadindo a pista na altura da 202 Norte. “Nossa intenção era alertá-lo de que o Eixão estava fechado e que ele estava pondo a vida dos pedestres em perigo”, afirmou o estudante Francisco Delano, 23. O grupo logo formou uma barreira na frente do carro. “Foi aí que o motorista acelerou, derrubando um dos nossos amigos e a bicicleta dele”, completou a agrônoma Mara Marchetti, 38.

O administrador Renato Zurbinato, 32, que teria sido derrubado pelo carro, ficou enfurecido e, como afirmaram os próprios amigos, subiu no capô do veículo. Começou a pular, amassando a lataria. “Acionamos a polícia e, para a nossa surpresa, prenderam o Renato por crime de dano qualificado. Já o motorista que tentou nos atropelar apenas levou uma multa. Isso é um absurdo”, reclamou o advogado Ariel Foina.

Em visita

O motorista do Fox contou outra história. “Sou de Belo Horizonte e vim visitar minha esposa, que está morando aqui há um ano. Não estou acostumado a dirigir em Brasília. Peguei uma tesourinha e entrei no Eixão sem saber de nada, pois não havia nenhuma barreira física ou sinalização”, revelou. Quando entrou na pista, Jerson conta que os cinco ciclistas foram em sua direção exaltados, bloqueando a passagem. “Eles me impediram de sair com o carro. Um deles, muito nervoso, pulou no capô enlouquecido, desceu, me deu um soco no rosto e voltou a pular no capô. O carro ficou todo amassado. Fechei os vidros e liguei para a polícia”, disse Jerson. Ele estava com passagens de ônibus compradas para voltar para Belo Horizonte ontem mesmo.

Das duas versões apresentadas, o delegado de plantão da 5ª Delegacia de Polícia (área central do Plano Piloto) Celízio da Silva Espíndola, ficou com a do assessor de imprensa. “O motorista levou uma infração e teve o carro levado para a perícia. Já o ciclista Renato Zurbinato foi autuado em ato de prisão em flagrante por dano qualificado por motivo egoístico”, explicou o delegado.

O crime em questão rende pena de 1 a 3 anos de prisão. Os amigos de Renato disseram que pagarão a fiança de R$ 750 assim que possível. “O importante aqui é frisar que a atitude dos rapazes era a de proteger as pessoas que desfrutavam do Eixão como um lugar seguro. Não podemos esquecer dos fatores geradores da confusão. Falta fiscalização e sinalização para proteger quem frequenta o Eixão nos domingos”, alertou Marcelino Brandão, do grupo Rodas da Paz.

Aqui a versão do ciclista.

O que houve, de fato, caberá à polícia descobrir – ou não. Mas não deixa de ser um pouco sintomático que, no primeiro momento, o delegado tenha “ficado” com a versão do motorista. E que, aparentemente, a polícia sequer tenha cogitado a possibilidade de uma agressão muito mais grave que o dano causado – e assumido – pelo ciclista ao indefeso automóvel Fox. É espantoso, para resumir, que um ser humano de carne e osso, ainda que em fúria, pareça a alguém mais ameaçador que uma tonelada de ferragens.

Uma questão de percepção.