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3×2 com Pedro Cury, ciclista e fotógrafo

O que fazer quando sua bicicleta é roubada? O ciclista e fotógrafo Pedro Cury achava que “nada” não era a resposta certa e, em 2001, criou um Cadastro Nacional de Bicicletas Roubadas. A idéia é simples: a vítima do roubo ou furto envia um relato do ocorrido e, depois de uma verificação, o alerta é publicado na internet e repassado a lojistas de todo o Brasil. Além de aumentarem as chances de localização da bike, os relatos ajudam a entender o modo de agir dos ladrões e geram estatísticas úteis no combate ao crime. Hoje, o cadastro, que nasceu como uma seção do site Pedal.com.br, funciona em endereço próprio. E Pedro, aos 30 anos, formado em informática e gestão empresarial, garante que há novidades a caminho…

O cadastro realmente ajuda a recuperar bicicletas roubadas?
É difícil saber quantas bikes podem ter sido recuperadas indiretamente. Na maioria das vezes o dono não nos avisa da recuperação. Temos registro de apenas um caso em que a bike foi recuperada diretamente. O ladrão foi consertar a bicicleta em uma loja que tinha recebido o email com a notificação do roubo. O lojista então avisou à polícia e ao dono.

Como a idéia poderia melhorar? É necessária a participação do Estado num cadastro desse tipo?
Já temos plano de uma reformulação tecnológica. Novas funções serão criadas e melhores estatísticas. Porém, as funções essenciais já estão em funcionamento, como o envio de email para mais de 200 lojas. O que precisamos é de maior divulgação.

A participação do Estado pode se tornar interessante, porém não sei se existem órgãos organizados tecnologicamente para uma possível troca de informações. O que sei é que não existem dados oficiais sobre roubos de bicicleta no Brasil. O sistema tem capacidade de suprir essa necessidade caso seja necessário.

Você já foi vítima de furto ou roubo de bicicleta?
Felizmente, não, mas já tentaram me assaltar. A primeira tentativa foi há mais de dez anos… eu era adolescente e um cara maior pôs o pé na frente da bicicleta quando eu estava andando devagar, esperando o sinal abrir. Pude passar por cima do pé dele e fugir. A segunda foi no ano passado… Estava com quatro amigos, numa tarde de domingo, movimentada, num famoso parque no Rio. Eles estavam consertando um pneu furado e eu fiquei em movimento… Quando me dei conta havia quatro suspeitos sentados ao lado deles. Minha reação foi fugir e chamar a polícia. Porém, foi tarde…

3×2 com Willian Cruz, marido ciclista

Já conhecido entre os ciclistas de São Paulo, o analista de sistemas Willian Cruz, 36 anos, ficou famoso de verdade no mês passado, ao protagonizar com Priscila Teixeira um autêntico… casamento civil. Comum? Não quando os noivos chegam ao cartório de bicicleta.

Qual é o segredo para manter o terno – e o vestido de noiva – impecável numa pedalada de 8 km até o cartório?
Não foi muito difícil, já que pedalamos tranqüilamente e sem pressa. Não estávamos apostando corrida, nem em treinamento. Era só um deslocamento urbano, que não precisa ser feito com esforço e sim com prazer. Foi um passeio em ritmo tranquilo, para todos os convidados acompanharem, já que as idades variavam dos 13 aos 60 anos. Apesar do sol e do paletó, quase não suei. Foi como se estivéssemos andando sem pressa pela rua. E, mesmo assim, vencemos os 8 km em cerca de 50 minutos.

Tomamos alguns poucos cuidados com o vestuário para que as roupas não enroscassem na bicicleta, já que os fabricantes brasileiros estão bem atrás dos europeus e ainda não abriram os olhos para o uso cotidiano e casual da bicicleta nas grandes cidades. Minha bicicleta não tem proteção sobre a corrente, por isso prendi a barra da calça com um velcro preto, o que ficou discreto e imperceptível. Costumo fazer isso sempre que quero pedalar de calça, o que permite mantê-la limpa e intacta.

Como o vestido da noiva obviamente não poderia (e nem precisava) ser longo e de cauda, a Priscila “montou” um modelo mais curto, com uma saia pouco abaixo do joelho. A bicicleta da noiva, como todas as outras fabricadas por aqui, não tem guarda-saias, por isso as meninas que a enfeitaram colocaram duas proteções de papelão nas laterais das rodas, para que a saia não encostasse na roda traseira. Essas proteções foram decoradas com adereços e a frase “atenção, noivos passando”, compondo o conjunto da decoração da bicicleta.

Pedalada antes de dizer sim. Foto: CicloBR.

Seguindo no tema: é possível um casamento entre bicicleta e automóvel no trânsito caótico das grandes cidades?
Tem que ser. A rua é de todos, tanto dos carros quanto das bicicletas, ônibus, caminhões, motocicletas, skates, patins e pedestres. O que precisamos é divulgar mais esse conceito, que está enunciado no Código de Trânsito Brasileiro. Mas nem todo mundo tem conhecimento ou quer aceitar.

Não precisamos de ciclovias para usar a bicicleta como meio de transporte. Centenas de milhares de pessoas já a utilizam todos os dias aqui em São Paulo, apesar de termos uma única ciclovia decente e, mesmo assim, pela metade. Ciclovias são importantes em avenidas de tráfego rápido, onde protegem o ciclista do fluxo de veículos, mas é impossível e desnecessário implementá-las em TODA a cidade. O que precisamos é de compreensão de que a bicicleta é um veículo, de que deve se portar como tal e deve ter os mesmos direitos de circulação.

A implementação de ciclovias em algumas poucas avenidas de grande porte ajuda apenas a parcela de ciclistas que utiliza essas avenidas e apenas pelo tempo em que estão ali. Fora da ciclovia, o ciclista continua sendo visto como intruso. Na verdade, nesse aspecto, a ciclovia até atrapalha, já que ela segrega e propaga o falso conceito de que lugar de bicicleta é só na ciclovia. Mas há algumas ações de baixo custo e rápida implementação que trariam segurança a todos os cidadãos que utilizam a bicicleta, em toda a cidade.

A ação mais urgente e mais importante é uma campanha de conscientização em grande escala, que ao mesmo tempo incentive o uso da bicicleta (afinal, quanto mais ciclistas nas ruas, mais seguras elas se tornam) e esclareça a motoristas e ciclistas que o lugar da bicicleta é na rua, que sua presença deve ser aceita e que a vida que se equilibra em cima dela deve ser respeitada. A bicicleta na frente do carro não é um obstáculo, é uma pessoa, uma vida, tentando chegar a algum lugar com um veículo que ocupa pouco espaço, não polui e não congestiona. É essa a mensagem que deve ser passada.

Após uma fase inicial de educação, deve haver uma segunda fase de punição, onde motoristas que passem próximos demais a um ciclista ou que o ameacem com o veículo sejam punidos, como manda a lei, seja com multa ou até mesmo como crime – quando a ameaça caracterizar uma tentativa dolosa de lesão corporal ou ameaça à vida. Os motoristas que agem na anonimicidade dos vidros escuros e na certeza de impunidade passariam a pensar duas vezes antes de colocar a vida de alguém em risco.

Sinalização informativa também é importante, igualmente urgente e bastante eficiente. Bicicletinhas brancas pintadas no asfalto oficializam o direito que a bicicleta tem de circular naquele espaço, disciplinando os motoristas. Aqui em São Paulo, bicicletas foram pintadas no asfalto de grandes avenidas, por iniciativa popular, e o efeito foi perceptível.

Placas avisando que naquela via há tráfego de bicicletas também legitimam essa presença. Ambas as iniciativas fazem com que o motorista entenda que a bicicleta tem o direito de estar na via, coisa que é difícil de entrar na cabeça de muita gente que acredita que só quem paga IPVA tem direito de utilizar as ruas (como se o imposto fosse sobre Propriedade Viária, não do Veículo).

Portanto, para que esse casamento dê certo, é necessário principalmente ter uma mudança de visão nos setores do poder público responsáveis pelo trânsito nas cidades. E, enquanto eles não acordam, fazemos nossa parte impondo nossa presença nas ruas, evidenciando a presença da bicicleta e reivindicando os direitos dos ciclistas. Nós, ciclistas, estamos fazendo de tudo para esse casamento dar certo, por mais que a outra parte ainda não nos aceite totalmente…

Diz o slogan que o brasileiro é apaixonado por carro. Como fazê-lo se apaixonar pela bicicleta (como meio de transporte)?
Para o brasileiro se apaixonar pela bicicleta é preciso “seduzi-lo”. O uso da bicicleta deve se tornar atraente, agradável, objeto de desejo. E vendê-la apenas como veículo verde não é suficiente. O egoísmo costuma ser mais forte que o altruísmo, por uma questão de instinto.

Essa sedução pode ser feita de diversas formas. Mostrar que o uso da bicicleta é mais agradável e mais rápido que o do carro é uma delas, mas é preciso mais. Precisamos ter ruas mais seguras, que atraiam as pessoas a pedalar nelas. Precisamos divulgar rotas alternativas e agradáveis aos ciclistas iniciantes, para que pedalem em ruas paralelas e arborizadas, em vez de seguir pelas avenidas cinzas que usariam se estivessem de carro. Precisamos incentivar o uso da bicicleta com locais de estacionamento, integração com transporte público, vestiários nas empresas e aceitação de sua presença nas ruas e nos estabelecimentos comerciais. As pessoas precisam se sentir bem com a idéia de usar a bicicleta e ser aceitas e bem recebidas ao exercer essa opção.

É preciso derrubar o conceito, martelado dia e noite pela publicidade automotiva, de que o seu sonho é ter um carro. Quem é você, homem da televisão, para dizer que meu sonho é ter um carro? Quem foi que me convenceu que a felicidade está trancada atrás de metal e vidros escuros, com o ar-condicionado ligado, em vez de estar num parque, numa praça, numa praia? Onde é que está escrito que a medida do meu sucesso é o quanto de dinheiro eu jogo fora para manter meu carro? Isso é medida de sucesso ou de burrice?

Para fazer o brasileiro se apaixonar pela bicicleta, precisamos abrir seus olhos e mostrar que o casamento atual não está dando certo. Não adianta ficar se enganando, fingindo que o casamento está perfeito: o carro está te traindo. Dizem que ele te faz feliz, que ele te dá a vida que todo mundo queria ter, mas ele te prejudica sem você perceber. Prejudica sua saúde, altera sua personalidade, rouba seu tempo e fica com boa parte do seu dinheiro. Chega um momento em que a única opção é o divórcio. E, quando esse dia chegar, você vai agradecer por ter conhecido a bicicleta.

3×2 com Dioniso Sampaio, da Bicicletada de Bragança (PA)

Com “apenas” 100 mil habitantes, a cidade de Bragança, no Pará, também tem sua Bicicletada. O engenheiro de pesca e professor universitário Dioniso Sampaio, de 33 anos, é um dos que tem se mobilizado pela ampliação do espaço para o uso da bicicleta no município.

Como é realizar uma Bicicletada e buscar seus objetivos numa cidade de porte relativamente pequeno?
Não é fácil. Aqui a bicicleta é muito utilizada como um meio de transporte, no dia-a-dia, pela população que mora distante do centro comercial. Ou seja, temos uma flutuação muito grande do número de participantes, desde a primeira Bicicletada que aconteceu em Bragança.

A primeira Bicicletada aconteceu aqui em fevereiro de 2009, depois do Fórum Mundial que aconteceu em Belém, e contou com o incentivo do professor Colin Beasley, da Universidade Federal do Pará.

Bicicletas curtindo o visual. Bragança, Pará. Fonte: Dioniso Sampaio.

Bicicletas curtindo o visual. Bragança, Pará. Foto: Dioniso Sampaio.

Houve alguma mudança significativa na cidade, em termos de estrutura e comportamento das pessoas, recentemente?
A bicicleta, como um veículo verde, precisa ser trabalhado melhor aqui no município de Bragança pelo poder público municipal, entidades de classe e a população em geral. Não temos ainda uma Secretaria de Meio Ambiente e sim um departamento. Precisamos analisar melhor daqui para frente esses indicadores de avaliação de comportamento da população com o movimento da Bicicletada.

Qual sua lembrança mais marcante a bordo de uma bicicleta?
Já tive vários momentos bons e ruins em cima de uma bicicleta em Fortaleza, Rio de Janeiro (Tijuca), Ribeirão Preto e agora em Bragança. Adoro pedalar e estou deixando de lado a minha vida de sedentário desde 2007. Minha maior motivação para participar do movimento da Bicicletada é o meu filho de dois anos de idade.

3×2 com Leandro Valverdes, cicloativista

Leandro Valverdes, 31 anos, é jornalista e músico, mas prefere se apresentar como cicloativista. Uma pergunta sua ao secretário de Transportes da cidade de São Paulo, durante evento em junho, deu a deixa para um compromisso que resultou na transferência do programa Pró-Ciclista da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para a Secretaria de Transportes, no último dia 2 de julho.

Acredita em mudanças efetivas com a transferência do Pró-Ciclista da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para a Secretaria de Transportes? A cidade de São Paulo fica mais perto dos prometidos 100 km de ciclovias/ciclofaixas?
Acho que a transferência é uma vitória, ainda que simbólica. O tema que nos interessa é “bicicleta como meio de transporte”, não? Nada mais óbvio do que a Secretaria de Transportes de cada cidade responder por ele, como acontece no mundo todo, aliás. Aqui em São Paulo, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente pegou essa bandeira porque ninguém se interessava e nada era feito. Mas o Pró-Ciclista sempre teve as mãos amarradas e pouco podia fazer sem o aval de “técnicos” da Companhia de Engenharia de Tráfego, da Secretaria de Transportes, etc.

Com a mudança para a pasta de Transportes, o problema pode ao menos ser encarado de frente. E um exemplo do tamanho do desafio é a “malha cicloviária” que temos aqui. São singelos 30 km de ciclovias, dois terços dentro de parques, ligando o nada ao lugar nenhum… Eu até sugeriria que se mudasse o nome dessas rotas para algo como “ciclopasseio”, mas não são ciclovias. Agora, outra questão é se queremos ciclovia, se ela é a solução principal e a primeira coisa a ser buscada pelos cicloativistas… É uma discussão longuíssima e longe de ser consenso entre quem pedala.

Esse número de 100 km de ciclovias, algo jogado para a imprensa de forma irresponsável, certamente não vai sair do papel em 2009. Aliás, embora tenha sido prometido, acho que não existe nem no papel…

Pessoalmente, acho que o primordial a ser conquistado pelos ciclistas paulistanos é o “direito à rua”, o respeito por parte dos proprietários de 6 milhões de carros, que têm que compreender que a bicicleta, embora custe 1% do valor de seus automóveis, tem os mesmos direitos… que também é um veículo! Eu trocaria uns bons quilômetros de ciclovia por multas para quem não respeita o ciclista, tal como prevê o Código de Trânsito Brasileiro. Os artigos 201 e 220 simplesmente nunca foram aplicados desde que o CTB foi promulgado. O que primeiro difere a realidade brasileira da européia não é a falta de infraestrutura, mas sim a falta de respeito.

Como convencer uma pessoa de que não é loucura pedalar no trânsito de São Paulo?
Bom, só é loucura por conta do comportamento dos motoristas dos carros, ônibus, caminhões e motos. Todas as outras dificuldades citadas por quem tem preguiça de usar a bicicleta no dia-a-dia (clima, topografia, distância, falta de infraestrutura) são menores. Acho que loucura, e aí me aproximando até de um sentido clínico do termo, é a vida que boa parte dos paulistanos leva, com pelo menos duas sessões diárias de “enlouquecimento” dentro de seus automóveis, presos no trânsito. Sem nenhum pingo de futurologia, todos sabemos que a cidade vai parar, é uma questão meramente matemática, basta considerar esse número bisonho de mil carros emplacados todos os dias.

Assim, por bem ou por mal, as coisas vão mudar. Uma parte da classe média vai começar a usar mais o transporte público, e outra pequena parte talvez passe a olhar a bicicleta como uma possibilidade. Aliás, os ventos já estão mudando… Alguém chegar pedalando num lugar deixou de ser coisa de lunático, ou pior, de pobre. Até “excêntrico” está deixando de ser, e eu já ouvi algumas vezes pessoas dizerem: “Nossa, você veio de bicicleta? Que inveja, não pegou este trânsito.” Aí eu lembro ao interlocutor que a minha bicicleta não custou mais do que cinco tanques de gasolina de um carro…

Qual é o lugar mais estranho em que já pedalou?
Tive a sorte (ou o azar) de pedalar em lugares muito estranhos à realidade brasileira, principalmente em países europeus, em que a bicicleta é tratada como um veículo. Para quem pedala aqui, por exemplo, é estranhíssimo você ter o direito de parar no meio de uma rua, aguardando para fazer uma conversão à esquerda, e não ouvir xingamentos nem buzinadas do carro que está atrás. Ou então ver um motorista de ônibus esperar – sorrindo! – sua passagem antes de encostar num ponto.

Agora, uma vez tendo pedalado nas metrópoles brasileiras, você chega num lugar estranho desses, sobe numa Vélib e acha tranqüilo dar uma volta completa em pleno Arco do Triunfo, algo que um parisiense não faria…

3×2 com Fabio Moraes, cicloturista

Em março, o brasiliense Fabio Moraes, 25 anos, partiu num pequeno passeio com sua namorada Paloma Pinho: uma pedalada de 4.000 km de Brasília a Lima. Os dois completaram 100 dias de viagem no último domingo, na cidade peruana de Ayaviri, ainda a mais de 1.000 km da capital.

Como se chega à decisão de mergulhar numa viagem de 4.000 km em cima de uma bicicleta?
Tomar a decisao é fácil, difícil é se preparar e conseguir todos os equipamentos e dinheiro necessários para isso. Não sei muito bem de onde vem essa vontade, é como juntar a fome com a vontade de comer. Juntar as pedaladas com a vontade de conhecer novos povos e novos lugares. Faço isso por turismo. Não pretendo lutar pela paz ou salvar o mundo em cima da minha bicicleta, pretendo conhecer tudo aquilo que jamais teria a oportunidade de conhecer.

Qual foi o momento mais marcante da viagem?
O momento mais marcante até agora… Diga-se de passagem que hoje [28 de junho] completamos 100 dias de viagem. E o momento mais marcante foi a subida das cordilheiras. Um visual que não conhecia, montanhas e muitas subidas. Uma energia muito diferente do que tinha experimentado em viagens. Pelo clima e paisagens, que agora já são mais comuns.

Qual foi sua primeira bicicleta e qual sua lembrança dela?
Ganhei uma bicicleta do meu padrinho. Uma aro 20, azul. Com um protetor de espuma no guidão, para não bater a boca. Sei que, assim que ganhei a bicicleta, subi nela, sem rodinhas nem nada. Saí pedalando. Mas não consegui fazer uma curva e caí. Daí, voltei chorando e não quis mais andar. Fui andar algum tempo depois, e já não subi e saí andando como na primeira vez, tive que aprender passo a passo.

3×2 com Zé Lobo, da Associação Transporte Ativo

Morador do Rio de Janeiro, Zé Lobo, 48 anos, é diretor da Associação Transporte Ativo, que atua no incentivo ao uso da bicicleta como meio de transporte. Designer gráfico por formação, abraçou a profissão de “promotor do uso de bicicletas”, atuando como pesquisador, consultor, palestrante, piloto…

Como avalia os primeiros dias de funcionamento da “faixa compartilhada” em Copacabana?
Os motoristas ficaram espantados: “Como 30 km/h e preferência para as bicicletas?!?!?!” Isso será muito bom para que eles aprendam o Código de Trânsito.

O entregadores da área estão adorando, sugeriram que a cidade inteira fosse assim. Mas estão usando a contramão também, apesar de terem uma via na mão, com preferência total para eles.

A população em geral que circula de bicicleta pela região já começa a reconhecer as rotas como mais seguras para cruzar o bairro no sentido montanha-praia. Fizemos uma contagem quatro dias após a inauguração e vamos repeti-la em três meses para ver o que mudou. (Veja o relatório enviado à Prefeitura do Rio de Janeiro)

Mas o mais importante é a afirmação do prefeito, que aprovou e quer espalhar o sistema pela cidade.

Para finalizar, não são “faixas compartilhadas”, como a mídia vem dizendo. São vias comuns, como todas as outras do país, onde o ciclista pode circular e com preferência sobre os automóvies (art. 58 do CTB). Ali temos uma rota indicada no piso que leva com segurança o ciclista que vem pela ciclovia da Orla até o metrô.

Qual foi o momento mais marcante na sua relação, como ciclista, com o trânsito e os automóveis?
Foram muitas. Ultrapassar Porsches e Ferraris de mais de meio milhão de reais, presos no trânsito, com uma Ceci de segunda mão, de aproximadamente 50 reais, é algo incrível. Mas o momento mais marcante foi quando o Túnel Rebouças, principal ligação Norte-Sul do Rio de Janeiro, teve que ser fechado por alguns dias devido a um desmoronamento pós-tempestade. A cidade parou, ninguém mais conseguia cumprir horários, o metrô ficou superlotado, mas as bicicletas seguiram como se nada tivesse ocorrido. Continuaram cumprindo horários, e o tempo de deslocamento não mudou. Foi a maior prova que tive de que as bicicletas superam qualquer dificuldade.

De quebra, ainda foi possível usar o túnel, que nos dias comuns não permite a travessia em bicicletas. (Vídeo)

Que dicas daria a alguém que esteja começando a usar a bicicleta como meio de transporte?
Pratique primeiro perto de casa, indo à farmacia, padaria, banco e fazendo todas as viagens curtas. Com o tempo, naturalmente sua confiança vai aumentar e conseqüentemente as distâncias percorridas também.

Procure estar familiarizado com sua bicicleta, com a legislação voltada a ela e procure sempre ir por ruas menos movimentadas.

Seguindo essas dicas fica fácil seguir adiante.