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Muitas tragédias

O atropelamento de mais de uma dezena de ciclistas, em Porto Alegre, na sexta-feira passada não foi só um momento de horror para as vítimas diretas e demais participantes do passeio. Com o desdobramento do caso, que dificilmente será rápido ou simples, perderemos todos que convivemos diariamente nas ruas, em bicicletas ou carros (ou motos, caminhões, ônibus). A perspectiva, qualquer que seja o resultado da ação penal contra o motorista envolvido, não é de maior conscientização; é, sim, de aprofundamento da intolerância e do radicalismo.

Ciclistas mais ou menos engajados na promoção do uso da bicicleta se tornarão mais enfáticos – e agressivos – na relação com os motoristas. Motoristas terão uma nova “justificativa” para reações violentas contra ciclistas. E, principalmente, não-ciclistas se sentirão ainda mais desmotivados a adotar a bicicleta como meio de transporte cotidiano.

A previsão pode parecer pessimista, mas, no momento em que grupos de ciclistas de vários estados se organizam para realizar protestos ao longo da semana, os comentários nos sites de notícias já dão uma indicação do que vem a seguir. “Ciclistas palhaços”, brada um leitor, contrariado com a obstrução do trânsito pelos passeios ciclísticos. “Estão querendo mais aparecer do que protestar”, critica outro. “Os ciclistas são abusados mesmo. Se alguém jogar a bicicleta por cima do meu carro, não penso duas vezes. Passo por cima mesmo”, sentencia um terceiro.

Crer que a intolerância é exclusividade de motoristas, no entanto, é um erro. Entre os ciclistas engajados há também aqueles que pregam o enfrentamento e até a violência para “ensinar” aos condutores de automóveis as leis de trânsito. Parte das barbaridades como a registrada na capital gaúcha ocorre justamente no calor de discussões entre selvagens de ambas as frentes.

Não se trata, aqui, de relativizar a responsabilidade do atropelador de Porto Alegre. O Código de Trânsito Brasileiro, em seu artigo 29, dispõe, por exemplo, que “respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres”.

Além dos aspectos puramente legais, a explicação dada pelo motorista, de que os ciclistas sem razão alguma decidiram em conjunto linchá-lo pelo simples fato de possuir um automóvel, parece pouco crível.

Suponhamos, então, que o motorista seja de fato um facínora destemperado e que sua passagem no meio do passeio tenha sido realmente uma tentativa de homicídio (ou várias). A que paraíso uma pena severa pode nos levar?

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Bicicletada do dia sem carro

Na próxima quarta, dia 22, celebra-se o Dia Mundial sem Carro. Em Brasília, será realizada uma Bicicletada especial, com concentração na Praça das Bicicletas (Museu da República), a partir das 18h. Atividades em outras cidades – e serão muitas – podem ser consultadas no site da Bicicletada e no wiki do World Carfree Day.

3×2 com Dioniso Sampaio, da Bicicletada de Bragança (PA)

Com “apenas” 100 mil habitantes, a cidade de Bragança, no Pará, também tem sua Bicicletada. O engenheiro de pesca e professor universitário Dioniso Sampaio, de 33 anos, é um dos que tem se mobilizado pela ampliação do espaço para o uso da bicicleta no município.

Como é realizar uma Bicicletada e buscar seus objetivos numa cidade de porte relativamente pequeno?
Não é fácil. Aqui a bicicleta é muito utilizada como um meio de transporte, no dia-a-dia, pela população que mora distante do centro comercial. Ou seja, temos uma flutuação muito grande do número de participantes, desde a primeira Bicicletada que aconteceu em Bragança.

A primeira Bicicletada aconteceu aqui em fevereiro de 2009, depois do Fórum Mundial que aconteceu em Belém, e contou com o incentivo do professor Colin Beasley, da Universidade Federal do Pará.

Bicicletas curtindo o visual. Bragança, Pará. Fonte: Dioniso Sampaio.

Bicicletas curtindo o visual. Bragança, Pará. Foto: Dioniso Sampaio.

Houve alguma mudança significativa na cidade, em termos de estrutura e comportamento das pessoas, recentemente?
A bicicleta, como um veículo verde, precisa ser trabalhado melhor aqui no município de Bragança pelo poder público municipal, entidades de classe e a população em geral. Não temos ainda uma Secretaria de Meio Ambiente e sim um departamento. Precisamos analisar melhor daqui para frente esses indicadores de avaliação de comportamento da população com o movimento da Bicicletada.

Qual sua lembrança mais marcante a bordo de uma bicicleta?
Já tive vários momentos bons e ruins em cima de uma bicicleta em Fortaleza, Rio de Janeiro (Tijuca), Ribeirão Preto e agora em Bragança. Adoro pedalar e estou deixando de lado a minha vida de sedentário desde 2007. Minha maior motivação para participar do movimento da Bicicletada é o meu filho de dois anos de idade.

3×2 com Felippe César, do Ciclo Urbano

A Prefeitura de Aracaju garante que a cidade e sua malha de ciclovias só perdem, proporcionalmente, para Rio de Janeiro e Teresina. O arquiteto e urbanista Felippe César, de 23 anos, presidente da associação Ciclo Urbano, não é tão otimista. Participante de primeira hora da Bicicletada local, ele ainda vê muitas dificuldades para o ciclista na capital sergipana.

Promover o uso da bicicleta como meio de transporte numa capital de menor porte, com menos atenção da mídia nacional, é mais fácil ou mais difícil?
Essa é uma pergunta difícil. Na verdade, não consigo classificar dessa forma. Eu vejo da seguinte maneira: partindo do princípio de que em uma cidade pequena nós conseguimos ter um poder de cobertura da população mais rápido nas ações pontuais, independente da mídia nacional, nós encontramos outra dificuldade, que é a do carro como um objeto além de meio de transporte. Quando se mora em cidades com poucos habitantes e praticamente todos se conhecem, o status “se faz necessário”, e o veículo em que você anda representa o que você é, é o seu “cartão de visita”, um modo de se mostrar “bem-sucedido”. Isso faz com que a bicicleta seja vista como um mero objeto de lazer ou de saúde, não como meio de transporte. Talvez seja por isso que, mesmo com o crescimento do uso da bicicleta em Aracaju, ainda vemos nos horários comerciais o perfil do ciclista homem e operário da construção civil ou autônomo. Porém, à noite e nos finais de semana, isso se reverte. A maioria dos ciclistas é de pessoas de classe média ou alta!

Aracaju se anuncia como “capital do ciclismo” e garante ter a terceira maior malha de ciclovias do país (62,6 km). Esse é um retrato fiel da realidade?
A última contagem que tive foi de quase 50 km, mas vale ressaltar que as ciclovias mais antigas estão em péssimo estado de conservação. Os números existem, mas a qualidade de muitas ciclovias já está comprometida. Ciclistas fazem reclamações constantes. Acontece de muitos deles usarem a pista por ser mais “confortável” do que a própria ciclovia.

O cliclista precisa de mais ciclovias ou de mais informação por parte de quem compartilha as vias com ele?
Se são mais ciclovias que farão com que as pessoas usem mais a bicicleta? Não, na verdade o que se precisa é criar condições viárias seguras para o ciclista, ter um trânsito cordial. Isso se consegue reduzindo os limites de velocidade, desenvolvendo soluções viárias que privilegiem os veículos não-motorizados e desprivilegiando os carros particulares. Deve-se pensar o pedestre como principal objeto de mobilidade, trabalhar na educação de trânsito continuadamente, com grande quantidade de informações, através de campanhas educativas, propagandas, jornais, etc. Além disso, os fiscais de tráfego devem começar a encarar o ciclista como parte do trânsito. Aqueles que não obedecem às leis devem ser abordados e conscientizados pelos agentes municipais, pois, ao contrário do motorista, o ciclista em nenhum momento de sua vida foi instruído sobre como se portar no trânsito. Essa abordagem inicial não deve ter penalidade ou multa, mas acredito que depois de dez anos de trabalho ininterrupto, e somente se toda a população tiver consciência dos direitos e deveres, podem sim ser aplicadas multas, como em países desenvolvidos que possuem ótima infraestrutura cicloviária, caso da Holanda e da Dinamarca.

Entre ciclovias e estacionamentos para bicicletas em toda a cidade eu prefiro os bicicletarios e/ou paraciclos! Acredito que incentivam muito mais do que as próprias ciclovias!

Bicicletada Junina

Fonte: Bicicletada DF

Depois do sucesso da inauguração da Praça das Bicicletas e de encher as ruas com quase 100 pessoas, a Bicicletada BSB segue seu caminho, em busca de melhores condições e mais respeito para os usuários de bicicletas.

Sempre com muita energia, descontração e questionamento, esse mês faremos a Bicicletada Junina.

E mantendo as tradições juninas do nosso Brasil Varonil-il-il , a Bicicletada faz mais uma grande festa da propulsão humana, desta vez contra a quadrilha do Fraga!!!!

Tragam apitos, bandeiras, balões, fogos de artifício.

Vai rolar fogueira de São João (e porquê não de Santa Joana?!?) e quem quiser pode ir à caráter!!!!

BICICLETADA JUNINA

DATA: 26 de junho, Sexta-Feira.
Horário: Concentração 18:00h
Local: PRAÇA DAS BICICLETAS (Em frente ao Museu da República, na Esplanada dos Ministérios).

Praça das Bicicletas

Por falta de tempo para escrever besteiras, reproduzo relato do Campus Online, da UnB, sobre momento importante da sexta-feira passada (29/5). A autora do texto é Ludmilla Alves:

“Alô alô, bicicleteiros! A partir de hoje, oficialmente – mas não burocraticamente –, está inaugurada a Praça das Bicicletas.” Assim começou a noite em que o amplo espaço de concreto entre a Biblioteca Nacional e o Museu da República ganhou um nome e um sentido de convivência e integração mais humano.

Toda última sexta-feira do mês, o local é ponto de encontro dos participantes da Bicicletada. O evento reúne ciclistas interessados em reivindicar seu espaço nas ruas, o reconhecimento das bicicletas como meio de transporte na malha de trânsito, e condições favoráveis para a prática do ciclismo com segurança.

“A ideia é criar um espaço de referência pra um grupo de pessoas que tentam meios alternativos no trânsito e não conseguem”. Segundo Artur Sinimbu, ex-estudante de Ciência Política e cicloativista, andar de bicicleta em Brasília é um desafio diário. “O desafio de pedalar numa cidade construída para carros”.

Apesar do clima descontraído, não se trata de um simples passeio ciclístico. A força política do evento fica estampada no perfil da maioria dos presentes. O jornalista Pedro Poney participa ativamente da organização das bicicletadas, e afirma que até a palavra organização, aí, pode soar equivocada: “a gente brinca falando que isso aqui é uma coincidência organizada”.

Texto completo aqui.