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Todo mundo nu (II)

E, por falar em pelados, começou a venda do famoso calendário do Instituto CicloBR. As páginas do Como nus sentimos são estreladas por 20 voluntários, homens e mulheres, incluindo a ex-apresentadora e atual política Soninha e a ex-jogadora de vôlei Ida. São duas versões, vendidas a R$ 45 cada, ou R$ 70 juntas.

Um trechinho do texto de apresentação do site do CicloBR:

Pode parecer difícil e incoerente a associação do nu ao ato de pedalar, mas aqueles que pedalam todos os dias em qualquer metrópole do mundo conseguem captar com facilidade a mensagem que pretendemos passar.

Enquanto os motoristas se sentem “protegidos” dentro das suas carruagens de metal, os ciclistas estão nus, sem nenhuma proteção, dependendo apenas da vontade dos motoristas em protegê-los ou não.

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Still we ride

Still we ride é um documentário de 2005 sobre a repressão da polícia de Nova York à Critical Mass – reunião mensal de ciclistas prima-irmã da Bicicletada brasileira – a partir da convenção republicana de agosto de 2004. O filme, de apenas 37 minutos, destaca questões interessantes, como o direito de ir e vir de quem pedala e a distinção (ou não) entre um passeio ciclístico e uma passeata.

Dica do blog da Bicicletada de Maceió.

3×2 com Leandro Valverdes, cicloativista

Leandro Valverdes, 31 anos, é jornalista e músico, mas prefere se apresentar como cicloativista. Uma pergunta sua ao secretário de Transportes da cidade de São Paulo, durante evento em junho, deu a deixa para um compromisso que resultou na transferência do programa Pró-Ciclista da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para a Secretaria de Transportes, no último dia 2 de julho.

Acredita em mudanças efetivas com a transferência do Pró-Ciclista da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para a Secretaria de Transportes? A cidade de São Paulo fica mais perto dos prometidos 100 km de ciclovias/ciclofaixas?
Acho que a transferência é uma vitória, ainda que simbólica. O tema que nos interessa é “bicicleta como meio de transporte”, não? Nada mais óbvio do que a Secretaria de Transportes de cada cidade responder por ele, como acontece no mundo todo, aliás. Aqui em São Paulo, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente pegou essa bandeira porque ninguém se interessava e nada era feito. Mas o Pró-Ciclista sempre teve as mãos amarradas e pouco podia fazer sem o aval de “técnicos” da Companhia de Engenharia de Tráfego, da Secretaria de Transportes, etc.

Com a mudança para a pasta de Transportes, o problema pode ao menos ser encarado de frente. E um exemplo do tamanho do desafio é a “malha cicloviária” que temos aqui. São singelos 30 km de ciclovias, dois terços dentro de parques, ligando o nada ao lugar nenhum… Eu até sugeriria que se mudasse o nome dessas rotas para algo como “ciclopasseio”, mas não são ciclovias. Agora, outra questão é se queremos ciclovia, se ela é a solução principal e a primeira coisa a ser buscada pelos cicloativistas… É uma discussão longuíssima e longe de ser consenso entre quem pedala.

Esse número de 100 km de ciclovias, algo jogado para a imprensa de forma irresponsável, certamente não vai sair do papel em 2009. Aliás, embora tenha sido prometido, acho que não existe nem no papel…

Pessoalmente, acho que o primordial a ser conquistado pelos ciclistas paulistanos é o “direito à rua”, o respeito por parte dos proprietários de 6 milhões de carros, que têm que compreender que a bicicleta, embora custe 1% do valor de seus automóveis, tem os mesmos direitos… que também é um veículo! Eu trocaria uns bons quilômetros de ciclovia por multas para quem não respeita o ciclista, tal como prevê o Código de Trânsito Brasileiro. Os artigos 201 e 220 simplesmente nunca foram aplicados desde que o CTB foi promulgado. O que primeiro difere a realidade brasileira da européia não é a falta de infraestrutura, mas sim a falta de respeito.

Como convencer uma pessoa de que não é loucura pedalar no trânsito de São Paulo?
Bom, só é loucura por conta do comportamento dos motoristas dos carros, ônibus, caminhões e motos. Todas as outras dificuldades citadas por quem tem preguiça de usar a bicicleta no dia-a-dia (clima, topografia, distância, falta de infraestrutura) são menores. Acho que loucura, e aí me aproximando até de um sentido clínico do termo, é a vida que boa parte dos paulistanos leva, com pelo menos duas sessões diárias de “enlouquecimento” dentro de seus automóveis, presos no trânsito. Sem nenhum pingo de futurologia, todos sabemos que a cidade vai parar, é uma questão meramente matemática, basta considerar esse número bisonho de mil carros emplacados todos os dias.

Assim, por bem ou por mal, as coisas vão mudar. Uma parte da classe média vai começar a usar mais o transporte público, e outra pequena parte talvez passe a olhar a bicicleta como uma possibilidade. Aliás, os ventos já estão mudando… Alguém chegar pedalando num lugar deixou de ser coisa de lunático, ou pior, de pobre. Até “excêntrico” está deixando de ser, e eu já ouvi algumas vezes pessoas dizerem: “Nossa, você veio de bicicleta? Que inveja, não pegou este trânsito.” Aí eu lembro ao interlocutor que a minha bicicleta não custou mais do que cinco tanques de gasolina de um carro…

Qual é o lugar mais estranho em que já pedalou?
Tive a sorte (ou o azar) de pedalar em lugares muito estranhos à realidade brasileira, principalmente em países europeus, em que a bicicleta é tratada como um veículo. Para quem pedala aqui, por exemplo, é estranhíssimo você ter o direito de parar no meio de uma rua, aguardando para fazer uma conversão à esquerda, e não ouvir xingamentos nem buzinadas do carro que está atrás. Ou então ver um motorista de ônibus esperar – sorrindo! – sua passagem antes de encostar num ponto.

Agora, uma vez tendo pedalado nas metrópoles brasileiras, você chega num lugar estranho desses, sobe numa Vélib e acha tranqüilo dar uma volta completa em pleno Arco do Triunfo, algo que um parisiense não faria…

3×2 com Zé Lobo, da Associação Transporte Ativo

Morador do Rio de Janeiro, Zé Lobo, 48 anos, é diretor da Associação Transporte Ativo, que atua no incentivo ao uso da bicicleta como meio de transporte. Designer gráfico por formação, abraçou a profissão de “promotor do uso de bicicletas”, atuando como pesquisador, consultor, palestrante, piloto…

Como avalia os primeiros dias de funcionamento da “faixa compartilhada” em Copacabana?
Os motoristas ficaram espantados: “Como 30 km/h e preferência para as bicicletas?!?!?!” Isso será muito bom para que eles aprendam o Código de Trânsito.

O entregadores da área estão adorando, sugeriram que a cidade inteira fosse assim. Mas estão usando a contramão também, apesar de terem uma via na mão, com preferência total para eles.

A população em geral que circula de bicicleta pela região já começa a reconhecer as rotas como mais seguras para cruzar o bairro no sentido montanha-praia. Fizemos uma contagem quatro dias após a inauguração e vamos repeti-la em três meses para ver o que mudou. (Veja o relatório enviado à Prefeitura do Rio de Janeiro)

Mas o mais importante é a afirmação do prefeito, que aprovou e quer espalhar o sistema pela cidade.

Para finalizar, não são “faixas compartilhadas”, como a mídia vem dizendo. São vias comuns, como todas as outras do país, onde o ciclista pode circular e com preferência sobre os automóvies (art. 58 do CTB). Ali temos uma rota indicada no piso que leva com segurança o ciclista que vem pela ciclovia da Orla até o metrô.

Qual foi o momento mais marcante na sua relação, como ciclista, com o trânsito e os automóveis?
Foram muitas. Ultrapassar Porsches e Ferraris de mais de meio milhão de reais, presos no trânsito, com uma Ceci de segunda mão, de aproximadamente 50 reais, é algo incrível. Mas o momento mais marcante foi quando o Túnel Rebouças, principal ligação Norte-Sul do Rio de Janeiro, teve que ser fechado por alguns dias devido a um desmoronamento pós-tempestade. A cidade parou, ninguém mais conseguia cumprir horários, o metrô ficou superlotado, mas as bicicletas seguiram como se nada tivesse ocorrido. Continuaram cumprindo horários, e o tempo de deslocamento não mudou. Foi a maior prova que tive de que as bicicletas superam qualquer dificuldade.

De quebra, ainda foi possível usar o túnel, que nos dias comuns não permite a travessia em bicicletas. (Vídeo)

Que dicas daria a alguém que esteja começando a usar a bicicleta como meio de transporte?
Pratique primeiro perto de casa, indo à farmacia, padaria, banco e fazendo todas as viagens curtas. Com o tempo, naturalmente sua confiança vai aumentar e conseqüentemente as distâncias percorridas também.

Procure estar familiarizado com sua bicicleta, com a legislação voltada a ela e procure sempre ir por ruas menos movimentadas.

Seguindo essas dicas fica fácil seguir adiante.

Praça das Bicicletas

Por falta de tempo para escrever besteiras, reproduzo relato do Campus Online, da UnB, sobre momento importante da sexta-feira passada (29/5). A autora do texto é Ludmilla Alves:

“Alô alô, bicicleteiros! A partir de hoje, oficialmente – mas não burocraticamente –, está inaugurada a Praça das Bicicletas.” Assim começou a noite em que o amplo espaço de concreto entre a Biblioteca Nacional e o Museu da República ganhou um nome e um sentido de convivência e integração mais humano.

Toda última sexta-feira do mês, o local é ponto de encontro dos participantes da Bicicletada. O evento reúne ciclistas interessados em reivindicar seu espaço nas ruas, o reconhecimento das bicicletas como meio de transporte na malha de trânsito, e condições favoráveis para a prática do ciclismo com segurança.

“A ideia é criar um espaço de referência pra um grupo de pessoas que tentam meios alternativos no trânsito e não conseguem”. Segundo Artur Sinimbu, ex-estudante de Ciência Política e cicloativista, andar de bicicleta em Brasília é um desafio diário. “O desafio de pedalar numa cidade construída para carros”.

Apesar do clima descontraído, não se trata de um simples passeio ciclístico. A força política do evento fica estampada no perfil da maioria dos presentes. O jornalista Pedro Poney participa ativamente da organização das bicicletadas, e afirma que até a palavra organização, aí, pode soar equivocada: “a gente brinca falando que isso aqui é uma coincidência organizada”.

Texto completo aqui.

Yes, we can

Por alguma razão insondável, sempre que entro na sala com capacete e bicicleta a tiracolo, as pessoas perguntam se fui pedalando. O que se segue, quase sempre, é um diálogo agradável, embora um tanto repetitivo, que em algum momento inclui o comentário “que legal”. Um ou outro interlocutor vai além, conta que gostaria de ir de bicicleta e que já pensou no assunto, até concluir que é tudo muito complicado. Alguns mencionam dificuldades práticas, como roupas amassadas; a maioria alega temer o trânsito. Eu raramente argumento em contrário.

Sei que outras pessoas, até aqui em Brasília, vão de bicicleta ao trabalho. Mas o número ainda é pequeno, irrisório, para tanta gente que acha legal, gostaria de tentar e até já pensou seriamente no assunto. Talvez falte apenas um momento de iluminação. Ou talvez não falte nada.