O delírio da imprensa carrista

Enquanto cidades de todo o mundo, das maiores metrópoles a bucólicos recantos, repensam suas opções de mobilidade, no Brasil o jornal O Estado de S. Paulo, em pleno julho de 2014, ainda tenta incentivar o divisionismo, com um editorial (“Ter carro já é quase um crime”) em que denuncia “uma política deliberada para desestimular o uso de carros em São Paulo”.

A cultura do carrismo é tema de muitos estudos e artigos (leia um aqui), mas, pela sinceridade, alguns pontos do texto do Estado merecem comentários específicos.

Esse aumento de custos, porém, não deverá desestimular os motoristas a deixarem o carro em casa simplesmente porque, apesar de todo o esforço marqueteiro da Prefeitura, o serviço de ônibus na cidade continua muito ruim.

O mote inicial do editorial é que o aumento do preço dos cartões de estacionamento na Zona Azul vai ferrar a vida dos motoristas. No entanto, antes da metade do texto, o Estado já admite que ninguém vai deixar de usar o carro por causa disso.

É óbvio que, se muita gente usa o carro “por necessidade”, qualquer aumento de custo dessa opção – estacionamento, combustível, manutenção, preço do veículo – tende a ser excludente. Em termos mais claros: o primeiro a ser obrigado a desistir do carro, ou pelo menos a sentir mais no bolso, é o pobre. Mas será o pobre a vítima da Prefeitura? É o pobre que o editorial está defendendo?

(…) o número de passageiros e de viagens de ônibus não cresceu na proporção que se esperava ante o sacrifício imposto à cidade na forma de grandes congestionamentos, causados em parte pelas faixas exclusivas de ônibus.

Outro alvo do jornal são as faixas exclusivas para ônibus. O interessante aqui é a vítima das faixas: “a cidade”. A velocidade médias dos ônibus teria subido 1 km/h, “muito pouco” nos termos do editorial, mas ainda assim a vítima é “a cidade”, ou seja, todos.

A liberdade automotiva em São Paulo. Foto: CET-SP.

A liberdade automotiva em São Paulo. Foto: CET-SP.

(…) a administração petista anunciou que pretende construir 400 km de ciclovias, o que deverá resultar na supressão de até 40 mil vagas de estacionamento pela cidade. Mais uma vez o improviso se impõe, pois não foi apresentado nenhum estudo de viabilidade.

Como os exemplos de várias cidades demonstram, projetos mirabolantes de ciclovias podem trazer problemas de todo tipo, como risco ao ciclista, falta de integração com outros modais, falhas na execução e, sim, até prejuízos desnecessários ao trânsito motorizado. Mas o foco do jornal é bem direcionado: vagas de estacionamento. É essa a viabilidade que precisa ser demonstrada.

A intenção evidente é permitir que Haddad e seu time de secretários criativos possam posar de defensores dos “sem-carro”, o que pode pegar bem como propaganda, mas é terrível para a cidade.

Já no fim do texto, o jornal chuta o balde e chama o cidadão, incluído aí seu leitor, de idiota intelectualmente prejudicado. A política da Prefeitura, de acordo com a análise, “pode pegar bem como propaganda”, por um lado, “mas é terrível para a cidade”, pelo outro. Ou seja, o morador é trouxa, não vê um palmo adiante.

E, aqui, não dá nem para botar a culpa no pobre, que, como é de conhecimento geral, “não sabe votar”. O pobre, afinal, sempre andou de bicicleta, mesmo se arriscando em vias sem a menor infraestrutura para recebê-lo. A ciclovia não é prioritariamente para ele; é também, ou principalmente, para quem tem ou pode ter um carro.

A administração municipal decidiu tratar os motoristas de carros como párias, pois nenhuma decisão a respeito do transporte na cidade tem levado em conta que um terço do transporte na cidade tem levado em conta que um terço dos deslocamentos é feito por esse meio.

Até o Estado de S. Paulo sabe que qualquer política de mobilidade deve levar em conta todos os modais – e qualquer governo democrático deve respeitar os interesses e direitos de todos os grupos. Mas é impossível não perguntar: se “um terço dos deslocamentos é feito por esse meio”, é correto dedicar sempre a maior parte do espaço, dos recursos e dos esforços ao transporte individual motorizado?

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