Infância e liberdade

Sou de uma época em que condomínio fechado era uma troca de liberdade por segurança e carrinho motorizado era um brinquedo bacana que se alugava na pracinha.

Mas os tempos mudam e, de repente, me deparo com uma notícia sobre uma família de Ribeirão Preto (SP) que briga na justiça para garantir o “direito” de duas crianças pilotarem miniveículos movidos a bateria pelas ruas internas do condomínimo em que moram.

O trânsito dos miniveículos conduzidos por menores de idade foi proibido por decisão tomada em assembléia. Inconformado, um casal recorreu ao Poder Judiciário, chegando a obter uma liminar para que seus filhos (de 4 e 9 anos) pudessem continuar a pilotar um carro e três motos elétricas dentro do condomínio. No entanto, na sentença de mérito, o juiz deu razão à assembléia. Para ele, a proibição é compatível com a convenção condominial e o Código de Trânsito, servindo para proteger a integridade física das próprias crianças e de terceiros.

Depois de perder um primeiro recurso no início de outubro, a mãe falou ao G1, e então a coisa fica mais interessante. Num raciocínio tortuoso, ela diz que é incoerente exigir carteira de motorista de uma criança e enfatiza sua opção por morar em condomínio, que teria sido feita “pela liberdade e segurança que ele oferece”. Prosseguindo na linha de argumentação, afirma, em tom indignado, que é “obrigada a colocar os filhos na rua ou numa praça, com o risco de serem assaltados”.

É assustador ver reproduzida no universo infantil, e sob o manto do direito sagrado das crianças de brincar, grande parte da retórica da liberdade automotiva como princípio realizador da própria individualidade humana. E com agravantes. Estimula-se, para começar, as crianças a verem o espaço comum como mera extensão de suas casas – do que decorre a prevalência do interesse pessoal sobre o coletivo. Reitera-se também a idéia da segregação como proteção; o isolamento, num condomínio ou num carro, como defesa ideal contra os perigos do mundo. Empurra-se, nisso tudo, um modo de ver o mundo, sempre como vítima, nunca como algoz.

Nada disso para dizer que os minicarros (e minimotos) a bateria sejam ameaças à sociedade. Não são. É só que, por incrível que pareça, tampouco são indispensáveis a uma infância plena. E livre.

[Número do processo: 0057777-31.2010.8.26.0506]

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2 Respostas para “Infância e liberdade

  1. Excelente reflexão. O penúltimo parágrafo é uma obra prima de síntese da sociedade em que vivemos.

  2. o pai “falsificou ” habilitações para os pimpolhos. reproduzir este tipo de documento é crime, previsto em lei. sem contar que é um péssimo exemplo para as crianças…

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