Arquivo do mês: julho 2012

Indianapolis 500

Um infográfico bastante popular na internet garante: entre os americanos de 16 a 34 anos, a quilometragem rodada de carro por ano caiu 23% de 2001 a 2009; o número de pessoas sem habilitação passou de 21% em 2000 para 26% em 2010; as viagens de bicicleta subiram 24% de 2001 a 2009…

No Brasil, no entanto, a revolução em curso nos EUA parece uma história mal contada. Afinal, como o berço do carro popular, o maior fabricante de automóveis do mundo por um século (hoje é a China), o país dos jipes e picapes, poderia de repente ver arrefecer sua paixão pelo carro? Impossível. Assim, incrédulos, vemos nossas grandes cidades tocando quase sempre iniciativas tímidas ou mais preocupadas com marketing do que com oferecer uma opção efetiva de mobilidade urbana.

Enquanto isso, numa cidade americana chamada Indianápolis, sim, aquela mesma do “templo do automobilismo”…

Recursos públicos e privados para 300 km de ciclovias em Indianápolis. Reprodução.

Reconhecida desde 2009 pela Liga dos Ciclistas Americanos como “cidade amiga da bicicleta”, Indianapolis lançou como nova meta implementar mais 320 km de ciclofaixas nos próximos 12 anos. Mas não é só isso. O projeto inclui infraestrutura de apoio, planos de integração com outros modais, eventos, campanhas de educação – neste verão americano foram nove palestras em bibliotecas públicas.

De acordo com a prefeitura, o uso da bicicleta pode melhorar a saúde dos moradores, ajudar a preservar o meio ambiente e reduzir os gastos com transporte. É um discurso que os políticos daqui já aprenderam a repetir. Só falta fazer o resto igual.

Bicicleta: cabo eleitoral

A Folha de S. Paulo publicou, na edição desta terça-feira, um artigo da jornalista Vera Magalhães sobre bicicleta e política. Até pelo espaço exíguo, o texto não é muito profundo, mas o alerta é claro: não se deixem seduzir pela súbita paixão de candidatos, em todo o Brasil, pela bicicleta.

Só esse trechinho já vale o artigo inteiro:

Ainda assim, é impossível não ver com ceticismo tanto entusiasmo em período eleitoral quando a prática dos governos municipal, estadual e federal é incentivar o uso de carro – seja com benefícios fiscais, seja pela precariedade do transporte público.

Apesar de reações raivosas, aqui e ali, contra o “bikerdismo”, a maioria dos candidatos, ao menos nas grandes cidades, já percebeu que a bicicleta como meio de transporte é uma bandeira simpática e promissora do ponto de vista eleitoral. Assessores são mobilizados para organizar pedaladas e elaborar propostas mirabolantes de ciclovias, ciclofaixas, ciclotudo que possam associar uma candidatura à defesa da mobilidade urbana, do trânsito seguro, da convivência pacífica. Desde já, uma imagem vale mais do que mil palavras, e certamente um punhado de votos.

Como reagir? Desconfiar sempre. Tentar descobrir, por exemplo, o que o candidato poderia ter feito em mandatos passados e não fez. Analisar o histórico do partido, dos correligionários, de todos os envolvidos na campanha. Buscar um compromisso firme – e, de preferência, assinado.

3×2 com Fábio Magnani, professor da UFPE

E a bicicleta virou disciplina de universidade. A partir do segundo semestre deste ano, os alunos de graduação em Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) poderão se inscrever na matéria Estudos da Bicicleta, oferecida como eletiva. Nas 30 horas do curso, serão abordados temas como a história da bicicleta, tecnologia, física do ciclismo, trânsito, mercado e organização política e social. As aulas serão dadas pelo professor Fábio Magnani, bicicleteiro e motoqueiro, que pretende estimular a criação de bicicletas mais adequadas ao uso urbano, enquanto espera uma revolução que vai muito além da tecnologia.

Como surgiu a idéia de oferecer uma disciplina voltada especificamente ao estudo da bicicleta?
Desde 2009 estamos realizando atividades sobre as motocicletas na UFPE. Durante a preparação de material, as bicicletas sempre apareciam. Nada mais natural que esses assuntos andem juntos, já que as bicicletas deram origem às motos. Além disso, as duas máquinas têm a mesma dinâmica, ambas são vulneráveis no trânsito, são marginalizadas pela ditadura dos carros e são propostas de uma nova ordem no trânsito: orgânica, criativa, divertida, inteligente e democrática.

Em 2011, a area de Energia do curso de graduação em Engenharia Mecânica da UFPE passou a oferecer várias disciplinas novas, que envolviam a geração e o uso da energia, tanto de origem fóssil quanto de fontes renováveis. Havia então a necessidade de ampliarmos nossa atuação no ensino. Durante as discussões nasceu a ideia de uma disciplina sobre bicicletas, que unia parte do já vínhamos fazendo com as motocicletas e o estudo de uma fonte de transporte não poluente. Nascia a disciplina Estudos da Bicicleta.

A disciplina propõe um estudo mais amplo da bicicleta, para além da engenharia mecânica, visando a pensar em produtos mais úteis à mobilidade urbana. Pode citar algum aspecto em que as bicletas como as conhecemos hoje podem melhorar?
Estudos da Bicicleta pretende deixar claro o que é importante para o uso urbano – por exemplo, marchas que mudem com facilidade, baixa resistência de rolagem e baixo arrasto aerodinâmico – e o que é supérfluo – por exemplo, materiais alternativos que representam uma diminuição muito pequena no peso, uso de suspensão nas cidades, freio a disco em cidades planas. Com essa distinção, os alunos estarão preparados para produzir bicicletas de qualidade, com preço justo e realmente úteis. O mercado de bicicletas novas gera algo como R$ 1,5 bilhões de reais por ano no Brasil. Há espaço para todos.

Do ponto de vista tecnológico, as bicicletas já estão prontas desde 1900. Claro que houve evolução, mas nada significativo. As novidades que aparecem todos os anos são quase todas supérfluas, criadas pelas indústrias apenas para vender mais. O que precisamos é de um choque no mercado, com a oferta de bicicletas úteis para o uso urbano: pneus lisos, para-lamas, iluminação e postura correta. Talvez o único componente que ainda não seja bem desenvolvido para o uso urbano seja o câmbio. As fábricas não conseguem produzir câmbios bons a um preço razoável.

No entanto, o que é preciso mesmo para uma revolução no uso das bicicletas está muito além da tecnologia. Precisamos de uma infraestrutura de ciclofaixas, campanhas para o aumento da segurança no trânsito, produção cultural que valorize a identidade do ciclista e uma organização política eficaz para a luta pelos direitos dos ciclistas. Esses assuntos também serão tratados na disciplina.

Como avalia o preparo de Recife para o uso seguro e eficiente da bicicleta como meio de transporte?
Recife tem a vantagem de ser uma cidade plana. Muitas pessoas andam de bicicleta pelas nossas ruas, principalmente trabalhadores. Isso é bom. Por outro lado, temos um clima quente e úmido, o que causa grande desconforto para o ciclista se não houver chuveiros e armários à sua disposição.

Os grandes problemas, no entanto, são a falta de infraestrutura nas vias e a falta de respeito ao ciclista. Há pouquíssimas ciclovias e ciclofaixas no Recife. Não podemos levar nossas bicicletas nos ônibus e nos metrôs. Os motoristas acham que são os donos das ruas, desrespeitando os motociclistas, ciclistas e pedestres. O assunto bicicleta até aparece nas campanhas eleitorais, mas vemos poucas ações de fato.

Mas temos soluções também. Por exemplo, Recife tem um grupo de jovens ativos na luta por melhores condições para os ciclistas. A luta deles se dá em várias frentes, como as discussões com políticos, a massa crítica e a valorização da imagem do ciclista. Se esses jovens conseguirem uma articulação com os trabalhadores (os ciclistas invisíveis) que rodam pela cidade, teremos um movimento muito forte.

Claro que o governo e as empresas podem ajudar um pouco, com a construção de vias, bicicletários, chuveiros e armários. O financiamento de uma indústria local também poderia baratear as bicicletas de qualidade, além de fortalecer a cultura do ciclismo. Finalmente, uma boa ajuda seria o financiamento de filmes, documentários, livros e sites que falem das bicicletas. Essa produção cultural é importante para divulgar as bicicletas como realmente são: eficientes, limpas, saudáveis e chiques.

Respondendo à pergunta: o futuro do Recife está nas mãos dos recifenses. Podemos continuar presos em nossos carros. Também podemos cumprir o nosso destino de cidade plana ao nos transformarmos em um paraíso para os ciclistas. Depende de nós. De todos nós.

Imagens (XV)

Consertando o poste e %$*#&$@ a ciclovia. Sudoeste, DF. Foto do blog.

PM-RJ usa bikes em pontos turísticos

Vivemos em uma cidade que tem problemas de trânsito e o acesso às ocorrências é mais rápido se o policial puder dispor de uma bicicleta, transpondo a barreira do tráfego.

A declaração acima, do tenente-coronel Joseli Cândido da Silva, foi dada na quarta-feira (11), no encerramento do 1º Curso de Ciclopatrulhamento, que capacitou 20 policiais militares do Rio de Janeiro que usarão bicicletas em rondas nas áreas turísticas da cidade. [Veja matéria do portal R7.]

A fala do comandante do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTur) diz muito a respeito da situação da mobilidade nas grandes cidades do país.

Bikes de PET na moda

As Muzzicycles, bikes com quadro de garrafa PET criadas pelo uruguaio Juan Muzzi, continuam na moda. Desta vez, é a Prefeitura de Indaiatuba (SP), que adotou a opção ecológica num sistema de empréstimo gratuito a ser lançado no próximo dia 15. Segundo a prefeitura, serão 200 bikes, disponíveis em três estações. O preço unitário pago pelas Muzzicycles foi de R$ 460.

Com ampla divulgação na imprensa desde o ano passado, as Muzzicyles já haviam sido adotadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, que testou as bicicletas de PET num esquema especial de policiamento durante a conferência Rio+20. O preço unitário anunciado na ocasião foi de R$ 850.

As Muzzicycles têm quadro feito com garrafas PET trituradas e prensadas, polipropileno, náilon e ABS. De acordo com o inventor da tecnologia, em cada bike são usadas 200 garrafas, o que permitiria reciclar milhões dessas embalagens, se a produção alcançasse larga escala.

Levando-se em conta que as bicicletas são bens duráveis e que o Brasil produz bilhões de garrafas PET por ano, o impacto ecológico das Muzzicycles, por enquanto, é mais simbólico do que concreto.

No site da empresa, as bicicletas completas custam de R$ 649 a R$ 1.617, enquanto o quadro sozinho sai por R$ 257.