Arquivo do mês: março 2012

Sobre deuses e homens

Ontem, depois de uma bela pedalada, escrevi o seguinte aqui:

Não importa o que fizermos, os canalhas e os covardes continuarão existindo, pelo simples fato de sermos pessoas. Não há escola, não há desenvolvimento socioeconômico, não há pena de morte capaz de acabar com a natureza humana.

Mas há, sim, a escolha e o exemplo. E eu espero que você, quando passar por mim, escolha buzinar e fazer um sinal de positivo. Prometo seguir seu exemplo e retribuir.

Não vou escrever sobre o caso Thor Batista porque não se trata de assunto de ciclista. O fato de o ajudante de caminhoneiro Wanderson Pereira dos Santos estar numa bicicleta na hora do atropelamento, nesse episódio, é apenas um detalhe. Se Thor bebeu, desrespeitou o limite de velocidade ou foi imprudente de qualquer outra maneira, a essa altura, também já não importa.

Só quero sugerir, aproveitando o mote de ontem, que você faça uma escolha. A escolha de acompanhar esse caso bem de perto, pois ele diz muito a respeito da nossa sociedade, dos nossos valores, do nosso futuro.

[Minha opinião sobre a cobertura inicial da imprensa nesse caso aqui.]

A natureza humana aos gritos e buzinadas

Hoje resolvi dar uma pedalada um pouco mais longa, de quase 30 km, para ir à UnB. Na volta, vinha tranqüilo por trás do autódromo quando um carro passou e, do banco do carona, um ilustrado senhor deu um grito ao meu lado… sim, um grito, um berro, um brado, não sei se para me sacanear ou assustar, e então os dois partiram com a sensação de realização que só um ato desse tipo deve proporcionar.

Uns dez minutos depois, já chegando ao Eixo Monumental, passou por mim outro carro. Desta vez, em vez de um grito, uma buzinada de leve, e do banco de trás um sujeito sorriu e fez um sinal de positivo.

Recorro a essa historinha boba – mas verídica – para propor uma pergunta simples: quem é, afinal, o indivíduo atrás do volante do carro que passa ao lado do ciclista? Quem é o indivíduo no balcão da loja, na repartição pública, na sala de reuniões, na cela superlotada?

Não importa o que fizermos, os canalhas e os covardes continuarão existindo, pelo simples fato de sermos pessoas. Não há escola, não há desenvolvimento socioeconômico, não há pena de morte capaz de acabar com a natureza humana.

Mas há, sim, a escolha e o exemplo. E eu espero que você, quando passar por mim, escolha buzinar e fazer um sinal de positivo. Prometo seguir seu exemplo e retribuir.

Ciclovia do Sudoeste: jogo dos erros (VI)

De acordo com o Jornal Local, da TV Brasília, o servidor público Rubem Azevedo fraturou o braço na última sexta-feira (9) ao passar por um buraco na ciclovia do Sudoeste. Para quem não ligou a obra à pessoa (jurídica), ou não se lembra da extensa série do Pedaladas, trata-se do empreendimento tocado como “contrapartida” pela empresa privada que pretende construir uma nova quadra residencial no bairro.

Desde o início do ano, relatos de problemas graves na ciclovia tem sido divulgados, principalmente em blogs. Ainda em janeiro, o arquiteto “responsável” pela obra disse ao Correio Braziliense que todas as falhas seriam corrigidas em 15 dias, prazo devidamente esquecido, inclusive pelo jornal que fez a denúncia.

Buraco na ciclovia, na altura da SQSW 101, era velho conhecido. Foto do blog.

O buraco que vitimou Rubem na altura da SQSW 101 é velho conhecido, a exemplo de rachaduras, falhas de sinalização, erros de projeto e remendos muito mal feitos, para dizer o mínimo. (Na verdade, era velho conhecido, porque no dia seguinte à exibição da reportagem foi tapado às pressas.)

Apesar dos óbvios riscos à segurança dos ciclistas – e ao bolso do contribuinte – ninguém se manifesta oficialmente sobre o assunto. O governo do Distrito Federal e a administração regional do Sudoeste/Octogonal disseram, aqui e ali, que não aceitariam obra mal-feita. A empresa, porém, age como se a ciclovia estivesse pronta e em excelentes condições. A tática, ao que parece, é aguardar que tudo caia no esquecimento.

No caso do Rubem, e dos 18 pinos que agora leva no braço, vai ser meio difícil.

Imagens (XIV)

Carinho dos Bombeiros do DF durante a Bicicletada Pelada 2012. Foto do blog.

Inevitável

Fórum Mundial da Bicicleta, mortes em série, Bicicletada Nacional. As duas últimas semanas foram de grandes emoções para quem acredita na bicicleta como meio de transporte. Movido por textos inspiratórios (se não inspiradores) e também pelas palavras raivosas de sempre, o assunto foi se espalhando, das redes sociais ao boteco da esquina. E, assim, saiu do mundinho dos cicloativistas e “bikerdistas” para a pauta do Jornal Nacional.

O que isso significa?

Que ainda haverá muitas mortes de ciclistas, que ainda haverá muitos comentários coléricos, que ainda haverá muita disputa entre todo tipo de facção. Mas, sobretudo, que esse é um caminho sem volta.

A violência e a cegueira coletiva só fizeram acelerar um processo inevitável.

Bicicletada Nacional na terça-feira (6)

Na próxima terça-feira (6), será realizada a primeira Bicicletada Nacional, em pelo menos 13 cidades do país, para protestar contra a violência no trânsito. Nesta sexta, houve mortes de ciclistas no Riacho Fundo (DF), Marituba (PA), São Paulo (SP) e sabe-se lá mais quantos lugares Brasil afora.

Aracaju (SE): 20h, Mirante da Treze de Julho
Brasília (DF): 19h, Praça das Bicicletas (Museu Nacional)
Caxias do Sul (RS): 19h, Prefeitura
Curitiba (PR): 19h, Pátio da Reitoria (UFPR)
Florianópolis (SC): 19h, Skate Park Trindade
Manaus (AM): 19h30, Parque dos Bilhares
Maringá (PR): 19h, Praça da Catedral
Porto Alegre (RS): às 19h, Largo Zumbi dos Palmares (Epatur)
Rio de Janeiro (RJ): 19h30, Cinelândia
Salvador (BA): 19h, Largo da Mariquita
Santo André (SP): 19h, Praça do Ciclista (Rua Coronel Alfredo Fláquer)
São Paulo (SP): 19h, Praça do Ciclista (Av. Paulista com Rua da Consolação)
Recife (PE): 19h, Praça do Derby

Pobres ciclistas

“A verdade é que o brasileiro está pedalando cada vez mais”, garante Ricardo Boechat, ao anunciar a boa série sobre a bicicleta como meio de transporte apresentada ao logo desta semana pelo Jornal da Band. Mas o brasileiro está mesmo pedalando cada vez mais?

Embora as matérias da série até mencionem os trabalhadores que usam a bicicleta por simples falta de opção, a ênfase é sempre na classe média alta, que descobriu nos últimos anos a bike como alternativa saudável, ecológica e sustentável ao modelo do carro individual.

Por que enquanto a bicicleta era exclusividade de operários e entregadores, muitas vezes expostos aos perigos multiplicados das rodovias, não se faziam matérias especiais sobre o tema?

É certo que a conscientização e a mobilização, hoje, favorecem todos os grupos que pretendem se locomover sobre duas rodas. Mas, se a bicicleta é uma oportunidade para discutir diferentes aspectos da nossa sociedade, talvez valha a pena também tentar entender por que os pobres ciclistas de 2012 merecem mais atenção que os ciclistas pobres de sempre.