Arquivo do mês: fevereiro 2012

Carta do Fórum Mundial da Bicicleta

O pessoal do Fórum Mundial da Bicicleta, encerrado ontem em Porto Alegre, divulgou uma carta:

Carta do 1º Fórum Mundial da Bicicleta

Os participantes do 1º Fórum Mundial da Bicicleta, reunidos em Porto Alegre entre 23 e 26 de fevereiro de 2012, após intensos e ricos debates, decidiram aprovar as seguintes ideias:

FELICIDADE

1) A bicicleta é um símbolo e um instrumento para a busca da felicidade agora.

SUSTENTABILIDADE

2) A bicicleta é um meio de transporte democrático sustentável e pode ajudar a salvar o planeta para as presentes e futuras gerações.

VIDA COMUNITÁRIA

3) A bicicleta proporciona o encontro das pessoas. A apropriação efetiva dos espaços públicos valoriza a vida comunitária e o compromisso do cuidado com a cidade.

POLÍTICAS PÚBLICAS

4) A bicicleta representa uma demanda social de inversão das políticas públicas atuais, que priorizam o transporte individual motorizado

CIDADES MAIS HUMANAS

5) A bicicleta está ligada ao conceito de Cidades Mais Humanas onde a segurança, a sociabilidade, a acessibilidade, a solidariedade e o bem estar das pessoas tenham prioridade sobre o fluxo de veículos automotores.

DEMOCRACIA

6) A bicicleta é uma forma de participar ativamente da vida da cidade. A democracia direta é um dos pilares que devem guiar todas as decisões que afetam a coletividade.

PAZ NO TRÂNSITO

7) A bicicleta é um símbolo de paz no trânsito e os usuários desejam tão somente partilhar as ruas. O Fórum Mundial da Bicicleta rechaça a ideia de existência de um conflito com motoristas. A escolha do modo de transportar-se não coloca as pessoas em campos conflitantes.

SAÚDE

8) A bicicleta tem grande potencial para buscar saúde preventiva da população, através de um estado completo de bem estar físico, mental, espiritual e social.

FORMAÇÃO DE REDES

9) A bicicleta trouxe pessoas do mundo todo para Porto Alegre. Um dos maiores ganhos do 1º Fórum Mundial da Bicicleta foi o fortalecimento e o efeito multiplicador que a troca de experiências entre pessoas de distintos lugares e realidades diferentes, o que criou uma rede de pessoas que juntas vêem na bicicleta o símbolo de um outro mundo possível.

HORIZONTALIDADE

10) A bicicleta uniu as pessoas que, de forma horizontal e voluntária, organizaram o 1º Fórum Mundial da Bicicleta. As próximas edições deverão seguir os mesmos princípios, podendo ser organizado em outros lugares e datas, sem rigidez ou alguma outra forma de centralismo.

Imagens (XIII)

Novotel do Rio de Janeiro na moda dos empréstimos de bicicletas. Foto do blog.

Carteira de não-motorista

A Undriver License é uma idéia que mostra que criatividade e inteligência são sempre boas armas na promoção do transporte sustentável. A “carteira de não-motorista”, que representa um compromisso com a redução do uso do carro, foi criada em 2007 por um grupo comunitário de Seattle (EUA). Desde então, foram realizados mais de 60 eventos na região, com emissão de 8 mil carteiras. Para obter o documento, além do pagamento de uma taxa de confecção, é exigida uma promessa de mudança para o mês seguinte – ir andando para a escola ou pensar duas vezes antes de entrar no carro, por exemplo. Os licenciados de Seattle recebem, além da carteira, seis passes de ônibus, oferecidos pelo departamento de transporte local.

Exemplos de carteiras de não-motorista da Undriving. Foto de divulgação.

A Undriving mantém um sistema de franquia para emissão de carteiras nos EUA.

E criar uma versão brasileira? Alguém encampa a idéia?

Ciclovia do Sudoeste: jogo dos erros (V)

Uma das minhas máximas preferidas é a que define um especialista como uma pessoa que sabe cada vez mais sobre cada vez menos e acaba sabendo tudo sobre nada. A predileção se deve não tanto ao seu conteúdo, que pouco tem de verdade, mas às possibilidades de aproveitamento da sua estrutura para aplicação em outros contextos.

Por exemplo, no que toca a relação entre o cidadão e a administração pública, não seria absurdo dizer que o brasileiro é um sujeito que aceita cada vez menos como se fosse cada vez mais e acaba aceitando nada como se fosse tudo.

Não há outra maneira de encarar a passividade do brasiliense diante da entrega iminente da ciclovia do Sudoeste como obra pronta e acabada. Um discurso comum é o de que os defeitos persistentes – rachaduras, buracos, sinalização errada, obstáculos – são apenas detalhes. Em linguagem mais clara: o povo, em vez de ficar reclamando, deveria agradecer por terem feito alguma coisa.

Um "pequeno" problema a ser entregue ao governo local. Foto do blog.

Por alguma razão insondável, é hábito aplicar às obras públicas um critério muito mais frouxo do que o usado nas relações privadas, quando o que vale é o cumprimento das obrigações de lado a lado. Cabe perguntar: se você contratasse um pedreiro para reformar o muro da sua casa e ele entregasse uma parede com rachaduras, saliências e concreto em várias tonalidades, você aceitaria?

Um "detalhe" no meio do caminho do ciclista. Foto do blog.

A regra é clara, Arnaldo. A obra deve ser entregue conforme as especificações definidas com antecedência e dentro das normas técnicas aplicáveis (especialmente as de segurança). Ah, mas como exigir que a empresa praticamente refaça tudo? Um bom começo é não recebendo uma obra repleta de defeitos.

[Outras postagens sobre o tema aqui, aqui, aqui e aqui. Vídeo do blog aqui.]

Ciclovia do Sudoeste: jogo dos erros (IV)

Mais de um mês depois do anúncio de que a ciclovia do Sudoeste (DF) seria entregue em 15 dias, a única certeza que se tem em relação à obra, em seu estado atual, é a seguinte: não vai demorar para haver um grave atropelamento.

A empresa responsável pela obra pintou faixas seccionadas nas travessias da ciclovia com as ruas. E, de acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, a preferência, indicada por esse tipo de sinalização, é do ciclista. É óbvio, porém, que ninguém na construtora ou na administração regional tem conhecimento do assunto.

Faixa na pista e placa dão preferência ao ciclista na travessia. Foto do blog.

Em determinados trechos, a sinalização é correta, com a faixa seccionada na pista e a placa (vertical) indicando a preferência para o ciclista.

Sinalização vertical contraria faixa seccionada pintada na pista. Foto do blog.

A demonstrar a “diligência” dos responsáveis pela obra, no entanto, outros trechos têm sinalização contraditória: a faixa dá preferência ao ciclista e a placa manda o ciclista dar preferência a quem segue pela rua.

Para piorar, em recente declaração ao programa DF TV, o diretor de engenharia de trânsito do Detran-DF (sim, diretor de engenharia de trânsito) disse singelamente que a faixa seccionada “não existe” e que “ela não tem um significado nem para o veículo, nem para o pedestre”.

O respeitável diretor nunca deve ter lido o CTB e seus anexos. Ou então não deve conversar muito com os responsáveis pela construção da ciclovia. Ou, mais provavelmente, as duas coisas.

Resta saber quem vai falar à imprensa depois do primeiro atropelamento.

[Confira o resto da série aqui, aqui e aqui.]

Imagens (XII)

"...do not totally regret life." Nova York, EUA. Foto do blog.