3×2 com Chris Rissel, pesquisador australiano

O uso do capacete pelos ciclistas deve ser obrigatório? O pesquisador Chris Rissel, de 50 anos, é um dos principais debatedores do assunto na Austrália, primeiro país a tornar o equipamento obrigatório, em 1989. Como especialista em educação e promoção da saúde, além de questionar a eficiência do capacete, ele argumenta que a redução do risco de lesões é praticamente anulada pela conseqüente restrição ao uso da bicicleta.

Você argumenta que a obrigatoriedade do capacete desencoraja o próprio uso da bicicleta e, consequentemente, impede que as pessoas obtenham os benefícios à saúde associados à prática. Mas o capacete em si, como equipamento de segurança, funciona? Os ciclistas tendem a ser menos cuidadosos quando usam capacete?
Não há nenhuma dúvida de que a introdução da legislação do capacete na Austrália levou a uma redução significativa, de 30% a 40%, no número de pessoas que pedalam. A mesma coisa ocorreu quando uma lei semelhante entrou em vigor na Nova Zelândia poucos anos depois. Todos os estudos mostram que os benefícios à saúde para quem anda de bicicleta superam significativamente o custo decorrente de lesões.

Os novos sistemas de bicicletas públicas mundo afora trouxeram mais uma fonte de dados sobre a segurança dos ciclistas. Por exemplo, em seis meses de operação do sistema de Londres, com milhões de quilômetros percorridos, o índice de ocorrência de lesões foi de 0,0023%.

Os capacetes de material não rígido, muito usados na Austrália, oferecem proteção limitada e em alguns casos aumentam o risco de lesão no cérebro. Esses capacetes não protegem o rosto e o pescoço. São desenhados para absorver impactos equivalentes a até 19,5 km/h. Se a cabeça bater no chão em alta velocidade, há um significativo aumento do risco de aceleração angular, o que pode resultar numa lesão axonal difusa, uma forma grave de lesão cerebral. Isso acontece porque a compressão do isopor significa que o capacete não desliza, como o casco rígido de um capacete de motociclista, podendo agarrar numa superfície rígida e provocar uma torção da cabeça.

Para ilustrar, podemos pensar no contato entre uma bola de futebol e a cabeça de um jogador e num soco no queixo dado por um boxeador. Um jogador de futebol acerta a bola com a testa cuidadosamente, num movimento para a frente, o que garante um impacto linear. Já um soco pode fazer uma pessoa desmaiar e, em casos mais sérios, até levar à morte.

Uma recente análise do uso do capacete feita por Rune Elvik na publicação Accident Analysis and Prevention concluiu que as estimativas atuais são tendenciosas e que os capacetes protegem a cabeça em, no máximo, de 10% a 15% dos casos.

Portanto, em troca de uma pequena proteção adicional, houve uma conseqüência extremamente negativa: menos pessoas pedalando. Não ter uma legislação específica significa apenas que as pessoas podem escolher usar ou não um capacete, de acordo com o risco. Fazer mountain bike ou disputar uma prova de velocidade é muito mais perigoso do que pedalar em ciclovias ou vias secundárias.

Em relação à última parte da pergunta, de fato, as pessoas adequam o comportamento à sua sensação de segurança. É o que se chama de teoria da compensação do risco. Um número crescente de estudos aponta que usar capacete faz as pessoas se sentirem mais seguras e pedalar mais rápido, o que anula o aumento da segurança.

A Austrália é um dos poucos países que determinam o uso obrigatório do capacete por ciclistas [A Nova Zelândia é outro]. Por quê?
A Austrália em geral tem uma cultura de segurança muito forte. Em todos os aspectos da vida, há uma preocupação em gerenciar os riscos, e as políticas e procedimentos servem para reduzir esses riscos. Mas algumas pessoas estão começando a dizer que isso já foi longe demais. Nem as crianças podem brincar e descobrir o mundo por causa de possíveis perigos.

Especialistas em segurança de trânsito dizem que os capacetes são extremamente eficientes, apesar das evidências em contrário, e por isso agora os políticos têm medo de permitir que o uso do capacete se torne uma questão de escolha pessoal.

Você costuma usar a bicicleta como meio de transporte?
Uso a bicicleta diariamente. Não tenho um carro e prefiro pedalar na chuva, no meio do trânsito pesado, a ficar preso dentro de um carro. Gosto muito de viagens de bicicleta. Conhecer um lugar novo em cima de uma bicicleta é se sentir realmente parte desse lugar.

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