Arquivo do mês: janeiro 2012

Fórum Mundial da Bicicleta

A agenda do Fórum Mundial da Bicicleta, em Porto Alegre, começou a tomar forma definitiva. Estão planejados painéis, oficinas, manifestações e festas, com temas tão diversos quanto esporte, saúde, turismo, mecânica e meio ambiente, além do ativismo. A grande “estrela” deve ser o americano Chris Carlsson, um dos fundadores do movimento Critical Mass, conhecido no Brasil como Bicicletada. Aliás, o período do evento, de 23 a 26 de fevereiro, faz referência ao atropelamento de ciclistas durante a Bicicletada de Porto Alegre, no dia 25 de fevereiro do ano passado.

Ciclovia do Sudoeste: jogo dos erros (III)

Os 15 dias para a correção das (muitas) falhas na ciclovia do Sudoeste acabaram e a obra parece longe de estar pronta. Os operários taparam buracos e pintaram faixas de travessia, aqui e ali, mas ainda há trechos incompletos e placas em locais completamente inadequados.

O mais grave, porém, é o seguinte: a infraestrutura básica da obra não vai sofrer mudanças. Ou seja, em poucos meses, as rachaduras se tornarão pedaços quebrados, a botar a segurança dos usuários em risco e a exigir consertos. Adivinhe quem vai pagar?

[Veja como estava a ciclovia há 15 dias aqui e aqui.]

No Sudoeste, céu lindo, ciclovia nem tanto. Foto do blog.

3×2 com Chris Rissel, pesquisador australiano

O uso do capacete pelos ciclistas deve ser obrigatório? O pesquisador Chris Rissel, de 50 anos, é um dos principais debatedores do assunto na Austrália, primeiro país a tornar o equipamento obrigatório, em 1989. Como especialista em educação e promoção da saúde, além de questionar a eficiência do capacete, ele argumenta que a redução do risco de lesões é praticamente anulada pela conseqüente restrição ao uso da bicicleta.

Você argumenta que a obrigatoriedade do capacete desencoraja o próprio uso da bicicleta e, consequentemente, impede que as pessoas obtenham os benefícios à saúde associados à prática. Mas o capacete em si, como equipamento de segurança, funciona? Os ciclistas tendem a ser menos cuidadosos quando usam capacete?
Não há nenhuma dúvida de que a introdução da legislação do capacete na Austrália levou a uma redução significativa, de 30% a 40%, no número de pessoas que pedalam. A mesma coisa ocorreu quando uma lei semelhante entrou em vigor na Nova Zelândia poucos anos depois. Todos os estudos mostram que os benefícios à saúde para quem anda de bicicleta superam significativamente o custo decorrente de lesões.

Os novos sistemas de bicicletas públicas mundo afora trouxeram mais uma fonte de dados sobre a segurança dos ciclistas. Por exemplo, em seis meses de operação do sistema de Londres, com milhões de quilômetros percorridos, o índice de ocorrência de lesões foi de 0,0023%.

Os capacetes de material não rígido, muito usados na Austrália, oferecem proteção limitada e em alguns casos aumentam o risco de lesão no cérebro. Esses capacetes não protegem o rosto e o pescoço. São desenhados para absorver impactos equivalentes a até 19,5 km/h. Se a cabeça bater no chão em alta velocidade, há um significativo aumento do risco de aceleração angular, o que pode resultar numa lesão axonal difusa, uma forma grave de lesão cerebral. Isso acontece porque a compressão do isopor significa que o capacete não desliza, como o casco rígido de um capacete de motociclista, podendo agarrar numa superfície rígida e provocar uma torção da cabeça.

Para ilustrar, podemos pensar no contato entre uma bola de futebol e a cabeça de um jogador e num soco no queixo dado por um boxeador. Um jogador de futebol acerta a bola com a testa cuidadosamente, num movimento para a frente, o que garante um impacto linear. Já um soco pode fazer uma pessoa desmaiar e, em casos mais sérios, até levar à morte.

Uma recente análise do uso do capacete feita por Rune Elvik na publicação Accident Analysis and Prevention concluiu que as estimativas atuais são tendenciosas e que os capacetes protegem a cabeça em, no máximo, de 10% a 15% dos casos.

Portanto, em troca de uma pequena proteção adicional, houve uma conseqüência extremamente negativa: menos pessoas pedalando. Não ter uma legislação específica significa apenas que as pessoas podem escolher usar ou não um capacete, de acordo com o risco. Fazer mountain bike ou disputar uma prova de velocidade é muito mais perigoso do que pedalar em ciclovias ou vias secundárias.

Em relação à última parte da pergunta, de fato, as pessoas adequam o comportamento à sua sensação de segurança. É o que se chama de teoria da compensação do risco. Um número crescente de estudos aponta que usar capacete faz as pessoas se sentirem mais seguras e pedalar mais rápido, o que anula o aumento da segurança.

A Austrália é um dos poucos países que determinam o uso obrigatório do capacete por ciclistas [A Nova Zelândia é outro]. Por quê?
A Austrália em geral tem uma cultura de segurança muito forte. Em todos os aspectos da vida, há uma preocupação em gerenciar os riscos, e as políticas e procedimentos servem para reduzir esses riscos. Mas algumas pessoas estão começando a dizer que isso já foi longe demais. Nem as crianças podem brincar e descobrir o mundo por causa de possíveis perigos.

Especialistas em segurança de trânsito dizem que os capacetes são extremamente eficientes, apesar das evidências em contrário, e por isso agora os políticos têm medo de permitir que o uso do capacete se torne uma questão de escolha pessoal.

Você costuma usar a bicicleta como meio de transporte?
Uso a bicicleta diariamente. Não tenho um carro e prefiro pedalar na chuva, no meio do trânsito pesado, a ficar preso dentro de um carro. Gosto muito de viagens de bicicleta. Conhecer um lugar novo em cima de uma bicicleta é se sentir realmente parte desse lugar.

Ciclovia do Sudoeste: jogos dos erros (II)

No passeio da semana passada pela ciclovia do Sudoeste, faltou um pedacinho que vai da SQSW 102 até o Eixo, subindo a Primeira Avenida. Completado o trajeto hoje, o que se viu foi mais do mesmo, com buracos, pegadas, obstáculos, rachaduras, falta de sinalização de alerta para os motoristas…

A única mudança em relação ao registrado no vídeo do Phillip é que viraram as placas de preferência que antes alertavam os ciclistas só depois da travessia. (O detalhe é que uma das placas, ao ser invertida, ficou escondida pela árvore.)

Buraco, placa escondida, faixa na rua, falta de sinalização. Foto do blog.

Vale lembrar que, segundo declaração do arquiteto responsável pela obra publicada no Correio Braziliense do domingo passado, todas as correções seriam feitas em 15 dias (até, portanto, o dia 23). Hoje é dia 13 e não houve qualquer avanço.

Também não vamos nos esquecer da garantia do administrador do Sudoeste/Octogonal de que não receberia a obra “do jeito que eles quiserem entregar”.

Dica de presente

É um presente que vai agradar qualquer pessoa minimamente interessada por bicicletas: o livro Cyclepedia reúne 100 modelos da coleção do designer austríaco Michael Embacher. Não são os mais importantes ou mais marcantes, segundo qualquer critério, mas as fotos e os (poucos) detalhes garantem uma bela diversão. E quem preferir pode simplesmente encostar o livro na mesinha da sala para entreter as visitas…

Embora não tenha a pretensão de ser um catálogo histórico de bicicletas, o livro traz itens curiosos, como a Hirondelle Rétro-Direct (1925), com sistema de pedalada para trás, e a Bickerton Portable (1971), uma das primeiras dobráveis realmente portáteis.

Coleção Embacher: mais de 200 bicicletas de todo tipo. Foto de divulgação.

[Como não ganho nada com isso, não vou dizer que você pode comprar o livro na Amazon, com entrega relativamente rápida.]

Galeria

Ciclovia do Sudoeste: jogo dos erros

Esta galeria contém 30 fotos.

A parte da ciclovia do Sudoeste a cargo da iniciativa privada (Oeste Sul Empreendimentos Imobiliários Ltda) deve ser entregue em 15 dias. A garantia é do arquiteto responsável pela obra, em depoimento ao Correio Braziliense, que finalmente resolveu divulgar, na … Continuar lendo

3×2 com Miguel Paiva, cartunista

Neste início de ano, o Gatão de Meia-Idade, publicado pelo jornal O Globo, garante: “A bike tá na moda”. E o cartunista Miguel Paiva, de 61 anos, obviamente, concorda com seu personagem. Ele, que diz pedalar quase todos os dias, torce para que a moda seja duradoura, com a criação da infra-estrutura apropriada e o comportamento adequado de motoristas e ciclistas.

Suas charges recentes no Globo dizem que “a bike tá na moda”. Acha que essa é uma moda passageira, como muitas outras, ou que veio para ficar?
Espero que tenha vindo pra ficar. Tudo depende das condições da cidade para conviver com as bicicletas. Não sei como vão as obras das ciclovias, mas só com bicicletas não se cria um hábito. É preciso ter onde andar e que as pessoas saibam como se comportar: motoristas e ciclistas. No mundo todo a bicicleta se tornou uma realidade.

Charge do Gatão de Meia-Idade publicada em 2007.

Uma charge sua de 2007 mostrava um “gatão caretão” num jipe e um “gatão modernão” numa bicicleta. Como você se definiria? Tem pedalado muito?
Pedalo quase todos os dias. Me locomovo aqui pela Zona Sul [do Rio de Janeiro] de bicicleta (Lagoa, Gávea, Jardim Botânico e Leblon). Na Serra, nos finais de semana, faço percursos mais longos com um equipamento mais apropriado. Adoro pedalar.

Qual é sua lembrança mais antiga com uma bicicleta?
A primeira bicicleta que tive, já menino, foi uma Phillips inglesa que herdei da minha prima. Era ótima, mas era uma bicicleta feminina, com o quadro próprio. Mas eu não ligava. Andava muito. Depois passei anos sem bike. Só fui comprar uma quando voltei do tempo em que vivi na Itália. Aí não parei mais.