Arquivo do mês: dezembro 2011

Ciclovia lunar

A ciclovia do Sudoeste, aqui no Distrito Federal, ainda não foi concluída, mas o que se vê até agora não é animador. As obras são tocadas sem cuidado e mesmo em trechos já pintados há falhas gritantes como desníveis e obstáculos.

Ciclovia na altura da quadra 103 do Sudoeste

Nova ciclovia do Sudoeste: só para veículos da Nasa. Foto do blog.

Não custa lembrar que as ciclovias são, em geral, as obras dos sonhos de empresas que participam de licitações públicas. Custam pouco, a despeito de contratos milionários, e a fiscalização é precária, quando existe. Há exemplos numerosos Brasil afora. Veja aqui, aqui e aqui.

Por isso, vale sempre o lembrete, retirado do manual de referência Licitações e contratos, publicado pelo Tribunal de Contas da União (TCU):

Ao atestar o recebimento do objeto, deve o responsável verificar se o bem foi entregue, a obra executada ou o serviço prestado em conformidade com o contrato.

Quantas bicicletas valem um Land Rover?

A associação Entrada Franca, de São José dos Campos (SP), lançou o projeto Bicicleta Amiga, que tem como meta inicial doar mil bicicletas a famílias da cidade que têm dificuldade para chegar à escola ou ao trabalho. As cotas de participação vão de R$ 286 (uma bicicleta) a R$ 22.880 (80 bicicletas). O projeto já recebeu apoio, entre outros, da Proshock, da nadadora Fabiola Molina e do shopping Vale Sul.

Já o shopping Iguatemi Alphaville, em Barueri (SP), promete sortear dez Land Rover Freelander 2S no Natal. A cada R$ 350 em compras o freguês tem direito a um cupom (e um panetone).

Um Freelander 2S (valor declarado de R$ 158 mil) daria para comprar 552 bicicletas.

Valencia multa ciclistas

A cidade de Valencia, na Espanha, tem um popular sistema de aluguel de bicicletas com 275 estações e uma rede de quase 170 km de ciclovias. Mesmo assim os ciclistas estão preocupados. É que as autoridades locais iniciaram uma ofensiva contra os infratores em duas rodas: agora pedalar na calçada ou prender a bicicleta em local proibido pode render multa de até 500 euros (R$ 1.200).

Segundo o blog I love bicis, do jornal El País, já foram aplicadas 530 multas e 887 advertências. A prefeitura alega que a repressão é resposta a reclamações de pedestres vítimas de atropelamentos por bicicletas. Já os ciclistas argumentam que nem sempre é fácil andar ao lado dos carros, principalmente para os novatos, e que falta uma política de acompanhamento por parte do poder público. Também se queixam do valor desproporcional da multa, às vezes superior à aplicada a motoristas, por infrações equivalentes.

A festa das ciclovias

De tempos em tempos, o Governo do Distrito Federal, independentemente de partido no poder, refesteja o projeto milionário das ciclovias na capital. Nos últimos meses, as máquinas vêm abrindo caminho em diversas regiões, enfrentando a chuva e retirando a vegetação, para satisfação de muitos moradores. Serão, afinal, 600 km de “ciclovias e rotas cicláveis” para oferecer uma nova opção de transporte à população.

Será?

As ciclovias não são milagrosas. Não mudam por si só a mentalidade de pessoas que se acostumaram a ver o carro como um direito e garantia fundamental – ainda que seja para ir à padaria. Não acabam, sozinhas, com o desconhecimento da lei. Não bastam para criar um espírito de tolerância e cooperação no trânsito.

Desde que vim morar aqui ouço que a paixão local pelo automóvel se deve apenas à “falta de transporte público”. E sempre me pergunto se haveria de fato uma mudança significativa se, num passe de mágica, um governador resolvesse corrigir a vergonha que são os ônibus e até o metrô da capital. Haveria?

A história é parecida com o uso da bicicleta: as pessoas dizem admirar quem pedala de um lado para o outro, mas quase como heróis tresloucados, nunca como seres humanos normais. Tudo seria diferente, esclarecem, se houvesse mais segurança, vestiário no trabalho, ciclovias…

Vai passar uma quase na minha porta. Quero ver quantas pessoas de verdade virão atrás.