A liberdade automotiva

A Folha informa que, em 2011, a taxa de ocupação dos automóveis em São Paulo foi de 1,4 pessoa por veículo. Pior: o número, segundo o jornal, vem caindo desde 2005. Ou seja, à medida que ganha espaço o debate sobre mobilidade urbana, o modelo do carro individual, paradoxalmente, torna-se mais popular na capital paulista.

As justificativas vão da inevitável crítica à falta de transporte público à defesa apaixonada da liberdade individual – ando de carro, e sozinho, porque posso e porque quero. Os direitos fundamentais, o merecimento e a ética protestante explicam, ou tentam, o exercício dessa liberdade sacrossanta tanto num popular 1.0 quanto num SUV de sete lugares.

A verdade é que eu gostaria de acreditar nesse discurso. Gostaria de me solidarizar com o cidadão de origem pobre que, a muito custo, comprou um Uno 2002 e agora não precisa mais sofrer de madrugada espremido num ônibus desconfortável para chegar ao trabalho na hora. Gostaria de me identificar com o filho da classe média, oprimido pela maior carga tributária do mundo, que se desdobra para pagar as prestações e desfrutar do esplendoroso espaço interno de seu Honda CR-V.

Eles, afinal, têm razão. É direito de todos buscar mais conforto, mais liberdade, mais segurança. Eu mesmo achava, e não faz muito tempo, que “um dia sem carro” era um ônus, uma lição necessária, um lembrete incômodo a ser imposto a uma sociedade irracional, desinformada e individualista. Mas não é.

Deixar o carro na garagem, longe de ser uma obrigação, é um privilégio.

Só poder fazer isso no Dia Mundial sem Carro é confirmação de que, sim, nossas escolhas são limitadas.

Não fazer isso nem no Dia Mundial sem Carro é evidência de que nossos carros individuais só podem ser vistos como um grito de liberdade até percebermos que não temos a opção de sair.

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3 Respostas para “A liberdade automotiva

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