Arquivo do mês: setembro 2011

Carro R$ 0,76, bicicleta, R$ 0,12

Um estudo da Coppe/UFRJ divulgado no início do mês pôs em números o que todo mundo imagina: a bicicleta é o meio de transporte mais barato. Com base num percurso de 20 km por dia, nas cidades de Porto Alegre e Rio de Janeiro, concluiu-se que a bicicleta consome R$ 0,12 por quilômetro contra R$ 0,76 do automóvel. O uso do ônibus implica gastos de R$ 0,32. Os cálculos usaram parâmetros da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), como aquisição de acessórios, depreciação, consumo, manutenção, impostos e custos sociais.

Anúncios

3×2 com Ricardo Braga Neto, do Pedala Manaus

O Pedala Manaus nasceu em janeiro de 2010 por iniciativa de um grupo de estudantes do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). De lá para cá, tem participado do desenvolvimento de uma cultura do uso da bicicleta como meio de transporte na capital amazonense, instigando a ação do poder público e incentivando a adesão da população. O biólogo Ricardo Braga Neto, de 33 anos, fundador e coordenador do movimento, comemora o aumento no número de ciclistas nas avenidas da cidade, mas pede ajuda ao setor privado para melhorar a infraestrutura e iniciar uma pequena revolução em Manaus.

Qual é a situação do uso da bicicleta como meio de transporte em Manaus?
Quem quiser pedalar hoje em Manaus vai encontrar uma situação extremamente carente de infraestrutura, muito pior que em outras capitais nacionais, o que acaba aumentando o risco de acontecer um acidente grave. Isso consequentemente inibe o aumento espontâneo do número de ciclistas que usam a bicicleta como meio de transporte, o que ajudaria muito a reduzir o trânsito, a emissão de poluentes e a superlotação do transporte coletivo.

Contudo, está acontecendo um fenômeno interessante. Até poucos meses atrás, era raro ver ciclistas pedalando diariamente em Manaus, mas hoje é possível encontrar muitas pessoas pelas principais avenidas da cidade, muitas das quais usam equipamentos de segurança, como capacetes, luzes sinalizadoras e luvas.

É óbvio que, se os governantes investirem em ciclovias, ciclofaixas e bicicletários para garantir segurança e conforto para os ciclistas, isso vai aumentar ainda mais o número de bicicletas nas ruas, potencializando a escolha da bike como meio de transporte alternativo, principalmente para distâncias curtas de até 15 km.

Grande parte das bicicletas produzidas no Brasil saem do Pólo Duas Rodas, em Manaus. As fabricantes instaladas no pólo (Caloi, Monark, Prince) apoiam iniciativas para ampliar o uso da bike no dia-a-dia?
Infelizmente as grandes fábricas instaladas no Pólo Duas Rodas não tiveram a iniciativa de fomentar o uso da bike no cotidiano de Manaus, mas isso está prestes a mudar. O Pedala Manaus está em negociação com o governo do estado e com a prefeitura de Manaus para implementar dois projetos que virão com as obras da Copa de 2014: o Projeto das Ciclofaixas de Manaus e o Projeto Cicloviário de Manaus.

O primeiro tem um perfil maior de lazer e turismo, enquanto o segundo visa fornecer infraestrutura urbana para incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte. Os coordenadores do Pedala Manaus acreditam que o melhor caminho para efetivar essas ideias é por meio da parceria público-privada, contando com apoio da sociedade civil.

O fato para o qual esses fabricantes precisam atentar é que o número de ciclistas em Manaus está aumentando exponencialmente nos últimos meses e investir neles é uma questão de responsabilidade social, algo que pode contribuir muito para a melhorar a imagem dessas empresas.

O clima quente e úmido não é um obstáculo ao uso da bike como meio de transporte? Como contornar esse inconveniente?
Embora o clima quente e úmido contribua para suarmos, não representa um impedimento para o uso da bicicleta como meio de transporte. O Pedala Manaus está fomentando não apenas o uso da bike em Manaus, mas acima de tudo a cultura da bicicleta. E, como toda cultura, é inevitável o processo de aprendizado e adaptação às condições locais, do qual o clima é um fator importante. Belém e Rio Branco são cidades quentes também, mas possuem muitos quilômetros de ciclovias.

O modo mais simples de contornar esse inconveniente é que os órgãos públicos e empresas privadas incentivem seus funcionários a usar a bicicleta e disponham de vestiários com chuveiros para que eles possam tomar banho e trocar de roupa, seguindo para o trabalho com ânimo renovado. Não é improvável que a produtividade dessas pessoas aumente com a melhoria da qualidade de vida.

Além disso, outro processo que poderia contribuir muito para reduzir as ilhas de calor em Manaus, embora mais lento, é a arborização da cidade ao longo das ciclovias que estão por vir, além de praças e parques urbanos.

“Capacete” leva prêmio de design

O Hövding, “capacete” inflável em forma de colar, levou no início do mês o prêmio principal do Index Award, maior competição de design do mundo. O brinquedinho usa um sensor de movimento para inflar em caso de queda. Apresentado pela primeira vez no ano passado, o Hövding ainda vai ser lançado comercialmente, com preço estimado de 2.998 coroas (R$ 796).

Segurança e estilo: Hövding promete proteção por R$ 796. Foto de divulgação.

A liberdade automotiva

A Folha informa que, em 2011, a taxa de ocupação dos automóveis em São Paulo foi de 1,4 pessoa por veículo. Pior: o número, segundo o jornal, vem caindo desde 2005. Ou seja, à medida que ganha espaço o debate sobre mobilidade urbana, o modelo do carro individual, paradoxalmente, torna-se mais popular na capital paulista.

As justificativas vão da inevitável crítica à falta de transporte público à defesa apaixonada da liberdade individual – ando de carro, e sozinho, porque posso e porque quero. Os direitos fundamentais, o merecimento e a ética protestante explicam, ou tentam, o exercício dessa liberdade sacrossanta tanto num popular 1.0 quanto num SUV de sete lugares.

A verdade é que eu gostaria de acreditar nesse discurso. Gostaria de me solidarizar com o cidadão de origem pobre que, a muito custo, comprou um Uno 2002 e agora não precisa mais sofrer de madrugada espremido num ônibus desconfortável para chegar ao trabalho na hora. Gostaria de me identificar com o filho da classe média, oprimido pela maior carga tributária do mundo, que se desdobra para pagar as prestações e desfrutar do esplendoroso espaço interno de seu Honda CR-V.

Eles, afinal, têm razão. É direito de todos buscar mais conforto, mais liberdade, mais segurança. Eu mesmo achava, e não faz muito tempo, que “um dia sem carro” era um ônus, uma lição necessária, um lembrete incômodo a ser imposto a uma sociedade irracional, desinformada e individualista. Mas não é.

Deixar o carro na garagem, longe de ser uma obrigação, é um privilégio.

Só poder fazer isso no Dia Mundial sem Carro é confirmação de que, sim, nossas escolhas são limitadas.

Não fazer isso nem no Dia Mundial sem Carro é evidência de que nossos carros individuais só podem ser vistos como um grito de liberdade até percebermos que não temos a opção de sair.

Caminho da Escola?

Em 26 de agosto, o Governo do Distrito Federal e o Ministério da Educação realizaram um grande evento no Recanto das Emas para a entrega de 300 bicicletas a estudantes da rede pública, como parte do programa Caminho da Escola. Agora, o DFTV, a partir de denúncia dos próprios “beneficiados”, informa um fato inusitado: todas as bikes foram recolhidas. É isso mesmo: os alunos, que chegaram a dar uma “volta de apresentação” e posar para peças publicitárias do programa, ficaram de mãos – e pés – abanando.

A justificativa da Secretaria de Educação é de que falta completar um treinamento para as crianças poderem pedalar em segurança. A previsão da diretora regional de ensino é de que em duas semanas – mais de um mês depois da entrega simbólica – essa etapa seja concluída. Um assessor do Detran, no entanto, disse ao DFTV que a segunda parte do treinamento foi suspensa.

Precisa comentar?

NYC Bike Share

A cidade de Nova York vai lançar, no próximo ano, um sistema de bikes compartilhadas. O NYC Bike Share deve ser inaugurado com 600 estações, em Manhattam e no Brooklyn, e cerca de 10 mil bicicletas. A exemplo de sistemas de outras cidades americanas e européias, viagens curtas serão “gratuitas”, condicionadas ao pagamento de uma taxa de assinatura do serviço. A licitação da operação foi vencida pela empresa Alta Bicycle Share, que ja atua nas cidades de Washington e Boston, nos EUA, e Melbourne, na Austrália.

Simulação de estação do NYC Bike Share na Times Square. Foto de divulgação.

Bicicletas demais?

O uso da bicicleta pode crescer tanto a ponto de virar um problema? Sim, mas, por enquanto, só no Reino da Dinamarca. Em Copenhague, capital do país, 36% dos moradores usam a bike para ir à escola ou ao trabalho, e a meta é chegar a 50% até 2015. O resultado é que, na hora do rush, os ciclistas têm de brigar por espaço nas (amplas) ciclofaixas. “Os ciclistas estão se tornando mais agressivos e imprudentes no trânsito. Vejo cada vez mais gente pondo a si e a outras pessoas em situações perigosas”, diz Frits Bredal, da Federação Dinamarquesa de Ciclistas. Parte dos ativistas teme, porém, que os problemas sejam manipulados para enfraquecer o ambiente “pró-ciclista” de Copenhague.

[Achado no ótimo Bike blog do jornal The Guardian.]