Arquivo do mês: setembro 2010

Imagens (VI)

Ornithopter: criação de estudantes canadenses movida a... pé humano. Foto de divulgação.

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3×2 com Flávio Deslandes, designer

Muito antes de se tornar uma “nova moda”, a bicicleta de bambu povoava os pensamentos do carioca Flávio Deslandes, designer formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Seu primeiro protótipo foi apresentado ainda durante o curso de graduação – em 1998. Agora, vivendo em Copenhague (Dinamarca), Flávio, de 37 anos, produz… bikes de bambu.

Matéria recente do New York Times apontou um crescimento na popularidade das bicicletas de bambu. Como alguém que já trabalha com esse conceito há mais de 15 anos se sente ao ler esse tipo de matéria?
Ainda lembro que naquela época as pessoas riam quando eu falava que estava desenvolvendo uma bicicleta de bambu… Mas eu sabia que esse dia ia chegar. Sempre achei muito impactante a mensagem que uma bicicleta de bambu podia passar, a idéia de construir baseado nos princípios de sustentabilidade utilizando um produto também sustentável. Acho que ela passa uma lição muito interessante de como podemos pensar os objetos, os materiais utilizados e sua construção.

Modelo Bamboo Fixie: roda fixa aro 700. Foto de divulgação.

O modelo mais barato à venda em seu site custa 2.200 euros (R$ 5.060). Qual seria um preço viável para as bikes de bambu se fossem vendidas em larga escala?
Nossas bicicletas são feitas a mão na Dinamarca, e o preço é calculado de acordo com isso. Talvez no caso de um modelo mais popular feito em larga escala, no Brasil, por exemplo, esse preço pudesse baixar para 600-1000 euros.

Copenhague é considerada a cidade mais amigável aos ciclistas no mundo. Qual foi sua reação ao chegar à capital dinamarquesa, em 2000?
Eu comprei uma máquina para tirar fotos das pessoas andando de bicicleta. Era difícil acreditar, parecia um paraíso para se andar de bicicleta. Percebi que era um conjunto de coisas que tornava isso viável: alto nível de educação, igualdade social e econômica, respeito e hierarquia no trânsito (as bicicletas tem prioridade sobre os carros), investimento em infra-estrutura… Acho que qualquer governo que queira implementar o uso da bicicleta em sua cidade deveria visitar Copenhague.

Dia Mundial com Carro

É com um tanto de constrangimento que, em pleno Dia Mundial sem Carro, admito que não vou de bicicleta ao trabalho há quase um ano. Chuva, compromissos encavalados, estrutura precária, conjunções astrais… desculpa nunca falta. Mas a questão aqui é outra: é possível defender um transporte mais sustentável e humano sendo proprietário – e usuário – de um automóvel?

Um radical poderia responder que não, que é preciso ser coerente e marcar posição, sem dar margem à argumentação das hostes inimigas.

Um tolerante poderia defender um discurso conciliador, com o bom senso e a moderação tomando o lugar do extremismo, em busca de um meio termo razoável.

Entre uma posição e outra, porém, encontra-se a maioria das pessoas. Pessoas que nunca pararam para pensar seriamente no desatino de circular diariamente sozinhas em carrões de sete lugares ou no prazer de usar as próprias pernas para se levarem ao trabalho. Pessoas que tampouco refletiram sobre a conveniência de carregarem a família inteira – e o papagaio – sem maior dificuldade ou sobre o transtorno de chegarem sujas e pegajosas a uma entrevista de emprego.

Não se trata, portanto, apenas de deixar o carro na garagem por um dia. É preciso pensar em que tipo de sociedade desejamos: uma que sabe querer pedalar ou uma que só quer saber de dirigir?

Bicicletada do dia sem carro

Na próxima quarta, dia 22, celebra-se o Dia Mundial sem Carro. Em Brasília, será realizada uma Bicicletada especial, com concentração na Praça das Bicicletas (Museu da República), a partir das 18h. Atividades em outras cidades – e serão muitas – podem ser consultadas no site da Bicicletada e no wiki do World Carfree Day.

Curitiba, a cidade das bicicletas (ou não)

Um pessoal de Curitiba deu início a um movimento bacana de mobilização e participação. A intenção do votolivre.org é apresentar projetos de lei de iniciativa popular, com base na Lei Orgânica do município, que prevê o recebimento pelo Legislativo de propostas que tenham apoio de pelo menos 5% do eleitorado (na esfera federal, de acordo com a Constituição, o requisito é de 1%).

E o primeiro projeto em busca de assinaturas é o da Lei da Mobilidade Sustentada Urbana (Lei da Bicicleta). O texto proposto determina a destinação de 5% das vias urbanas para ciclovias e ciclofaixas; obrigatoriedade de bicicletários ou estacionamentos para bicicletas em terminais de transporte, prédios públicos, escolas, centros comerciais e parques; realização de campanhas de educação para o uso da bicicleta como meio de transporte; e implementação de sistema de locação de bicicletas.

Uma curiosidade é que, a despeito das reclamações quanto à (falta de) estrutura para os ciclistas, Curitiba aparece em vários rankings das
cidades mais amigáveis às bicicletas” – é a quarta colocada na lista do AskMen e a sexta na do Momondo. Os dois sites falam em “cidade mais bem planejada do mundo” e “ciclofaixas por toda parte”.

Comentários de curitibanos no AskMen, contudo, sugerem uma realidade diferente. Um dos visitantes diz [tradução minha]: “Tá brincando, né? Moro em Curitiba e posso garantir que este não é um lugar para ciclistas. Infelizmente.” Outro ataca a credibilidade do ranking: “Moro em Curitiba e é um completo nonsense incluir a cidade numa lista das dez mais amigáveis às bicicletas. Por favor, não acreditem nessa lista.”

Com a palavra – e a caneta – os curitibanos…

Cidades das bicicletas

O site Tonic publicou uma lista das cinco cidades mais amigáveis ao uso da bicicleta como meio de transporte. A seleção, recém-saída do forno, é uma espécie de resumo das muitas listas semelhantes encontradas na internet. Abaixo, as justificativas dadas pelo site, em tradução livre (e apressada):

1. Copenhague, Dinamarca
A cidade com a sexta maior qualidade de vida no mundo também registra o maior número de ciclistas. Coincidência? Provavelmente não. Na “Cidade das Bicicletas”, praticamente todo morador tem uma. Copenhague oferece empréstimo gratuito de bicicletas e ciclovias com sinalização própria. Há até um bairro – Christiania – completamente livre de carros. E, como as autoridades planejam dobrar os investimentos em infra-estrutura para bicicletas nos próximos três anos, a cidade campeã só tende a melhorar.

2. Amsterdã, Holanda
Amsterdã, conhecida por muitos como a capital mundial das bicicletas, tem 400 km de fietspaden (ciclovias e ciclofaixas), a maior parte com sinalização própria e placas que dizem Uitgezonderd (exceções), para indicar que bicicletas e motonetas estão dispensadas de obedecer às restrições de trânsito. A cidade está construindo um estacionamento para 10 mil bicicletas na estação central de trens.

3. Davis, Estados Unidos
Davis, uma das primeiras cidades dos EUA a iniciar um planejamento de fato e a incorporar as bicicletas ao seu sistema de transporte, tem cerca de 160 km de ciclovias e ciclofaixas, de acordo com o site Virgin-Vacations. Está na categoria platinum da lista de cidades amigáveis organizada pela Bicycle Friendly Community. Há uma bicicleta até em seu emblema oficial. Como a Universidade da Califórnia em Davis mantém uma proibição quase total à circulação de carros no campus e os moradores decidiram acabar com os ônibus escolares, o uso da bicicleta no transporte é maciço. E a maioria das pessoas não se importa em pedalar, já que o terreno plano e o clima ameno tornam a atividade prazerosa.

4. Barcelona, Espanha
O serviço Bicing, lançado em 2007, permite que moradores e turistas solicitem um cartão para retirar uma bicicleta em qualquer dos cerca de cem pontos que se espalham pela região metropolitana, usá-la dentro dos limites da cidade e devolvê-la na mesma rede de estações. Também há, em Barcelona, um “anel verde” para ciclistas em torno da cidade e 3.250 vagas para bicicletas nas ruas. (A cidade está construindo uma grande garagem subterrânea para bicicletas.) São duas semanas por ano dedicadas à bicicleta: a Semana da Mobilidade Sustentável e Segura, em setembro, que inclui a celebração do Dia Mundial Sem Carro (22), e a Semana da Bicicleta, em maio, quando se realiza o Festival da Bicicleta. Os ciclistas dispõem, ainda, de ciclovias e ciclofaixas permanentes na cidade.

5. Portland, Estados Unidos
As vias para bicicletas em Portland passaram de 100 km para 400 km desde o início da década de 1990. O uso da bicicleta quadruplicou no período, sem elevação do número de acidentes. A estatística impressionante deve-se, provavelmente, à forte cultura ciclística da cidade e, desde 2000, ao programa Create a Commuter. A iniciativa, que ajuda a qualificar adultos de baixa renda, promove a bicicleta como um meio de transporte barato e confiável, oferecendo gratuitamente aos participantes cinco horas de treinamento em manutenção e segurança, além de uma bicicleta totalmente equipada – com luzes, cadeado, capacete, bomba de ar, ferramentas, mapa e proteção contra a chuva.