3×2 com Willian Cruz, marido ciclista

Já conhecido entre os ciclistas de São Paulo, o analista de sistemas Willian Cruz, 36 anos, ficou famoso de verdade no mês passado, ao protagonizar com Priscila Teixeira um autêntico… casamento civil. Comum? Não quando os noivos chegam ao cartório de bicicleta.

Qual é o segredo para manter o terno – e o vestido de noiva – impecável numa pedalada de 8 km até o cartório?
Não foi muito difícil, já que pedalamos tranqüilamente e sem pressa. Não estávamos apostando corrida, nem em treinamento. Era só um deslocamento urbano, que não precisa ser feito com esforço e sim com prazer. Foi um passeio em ritmo tranquilo, para todos os convidados acompanharem, já que as idades variavam dos 13 aos 60 anos. Apesar do sol e do paletó, quase não suei. Foi como se estivéssemos andando sem pressa pela rua. E, mesmo assim, vencemos os 8 km em cerca de 50 minutos.

Tomamos alguns poucos cuidados com o vestuário para que as roupas não enroscassem na bicicleta, já que os fabricantes brasileiros estão bem atrás dos europeus e ainda não abriram os olhos para o uso cotidiano e casual da bicicleta nas grandes cidades. Minha bicicleta não tem proteção sobre a corrente, por isso prendi a barra da calça com um velcro preto, o que ficou discreto e imperceptível. Costumo fazer isso sempre que quero pedalar de calça, o que permite mantê-la limpa e intacta.

Como o vestido da noiva obviamente não poderia (e nem precisava) ser longo e de cauda, a Priscila “montou” um modelo mais curto, com uma saia pouco abaixo do joelho. A bicicleta da noiva, como todas as outras fabricadas por aqui, não tem guarda-saias, por isso as meninas que a enfeitaram colocaram duas proteções de papelão nas laterais das rodas, para que a saia não encostasse na roda traseira. Essas proteções foram decoradas com adereços e a frase “atenção, noivos passando”, compondo o conjunto da decoração da bicicleta.

Pedalada antes de dizer sim. Foto: CicloBR.

Seguindo no tema: é possível um casamento entre bicicleta e automóvel no trânsito caótico das grandes cidades?
Tem que ser. A rua é de todos, tanto dos carros quanto das bicicletas, ônibus, caminhões, motocicletas, skates, patins e pedestres. O que precisamos é divulgar mais esse conceito, que está enunciado no Código de Trânsito Brasileiro. Mas nem todo mundo tem conhecimento ou quer aceitar.

Não precisamos de ciclovias para usar a bicicleta como meio de transporte. Centenas de milhares de pessoas já a utilizam todos os dias aqui em São Paulo, apesar de termos uma única ciclovia decente e, mesmo assim, pela metade. Ciclovias são importantes em avenidas de tráfego rápido, onde protegem o ciclista do fluxo de veículos, mas é impossível e desnecessário implementá-las em TODA a cidade. O que precisamos é de compreensão de que a bicicleta é um veículo, de que deve se portar como tal e deve ter os mesmos direitos de circulação.

A implementação de ciclovias em algumas poucas avenidas de grande porte ajuda apenas a parcela de ciclistas que utiliza essas avenidas e apenas pelo tempo em que estão ali. Fora da ciclovia, o ciclista continua sendo visto como intruso. Na verdade, nesse aspecto, a ciclovia até atrapalha, já que ela segrega e propaga o falso conceito de que lugar de bicicleta é só na ciclovia. Mas há algumas ações de baixo custo e rápida implementação que trariam segurança a todos os cidadãos que utilizam a bicicleta, em toda a cidade.

A ação mais urgente e mais importante é uma campanha de conscientização em grande escala, que ao mesmo tempo incentive o uso da bicicleta (afinal, quanto mais ciclistas nas ruas, mais seguras elas se tornam) e esclareça a motoristas e ciclistas que o lugar da bicicleta é na rua, que sua presença deve ser aceita e que a vida que se equilibra em cima dela deve ser respeitada. A bicicleta na frente do carro não é um obstáculo, é uma pessoa, uma vida, tentando chegar a algum lugar com um veículo que ocupa pouco espaço, não polui e não congestiona. É essa a mensagem que deve ser passada.

Após uma fase inicial de educação, deve haver uma segunda fase de punição, onde motoristas que passem próximos demais a um ciclista ou que o ameacem com o veículo sejam punidos, como manda a lei, seja com multa ou até mesmo como crime – quando a ameaça caracterizar uma tentativa dolosa de lesão corporal ou ameaça à vida. Os motoristas que agem na anonimicidade dos vidros escuros e na certeza de impunidade passariam a pensar duas vezes antes de colocar a vida de alguém em risco.

Sinalização informativa também é importante, igualmente urgente e bastante eficiente. Bicicletinhas brancas pintadas no asfalto oficializam o direito que a bicicleta tem de circular naquele espaço, disciplinando os motoristas. Aqui em São Paulo, bicicletas foram pintadas no asfalto de grandes avenidas, por iniciativa popular, e o efeito foi perceptível.

Placas avisando que naquela via há tráfego de bicicletas também legitimam essa presença. Ambas as iniciativas fazem com que o motorista entenda que a bicicleta tem o direito de estar na via, coisa que é difícil de entrar na cabeça de muita gente que acredita que só quem paga IPVA tem direito de utilizar as ruas (como se o imposto fosse sobre Propriedade Viária, não do Veículo).

Portanto, para que esse casamento dê certo, é necessário principalmente ter uma mudança de visão nos setores do poder público responsáveis pelo trânsito nas cidades. E, enquanto eles não acordam, fazemos nossa parte impondo nossa presença nas ruas, evidenciando a presença da bicicleta e reivindicando os direitos dos ciclistas. Nós, ciclistas, estamos fazendo de tudo para esse casamento dar certo, por mais que a outra parte ainda não nos aceite totalmente…

Diz o slogan que o brasileiro é apaixonado por carro. Como fazê-lo se apaixonar pela bicicleta (como meio de transporte)?
Para o brasileiro se apaixonar pela bicicleta é preciso “seduzi-lo”. O uso da bicicleta deve se tornar atraente, agradável, objeto de desejo. E vendê-la apenas como veículo verde não é suficiente. O egoísmo costuma ser mais forte que o altruísmo, por uma questão de instinto.

Essa sedução pode ser feita de diversas formas. Mostrar que o uso da bicicleta é mais agradável e mais rápido que o do carro é uma delas, mas é preciso mais. Precisamos ter ruas mais seguras, que atraiam as pessoas a pedalar nelas. Precisamos divulgar rotas alternativas e agradáveis aos ciclistas iniciantes, para que pedalem em ruas paralelas e arborizadas, em vez de seguir pelas avenidas cinzas que usariam se estivessem de carro. Precisamos incentivar o uso da bicicleta com locais de estacionamento, integração com transporte público, vestiários nas empresas e aceitação de sua presença nas ruas e nos estabelecimentos comerciais. As pessoas precisam se sentir bem com a idéia de usar a bicicleta e ser aceitas e bem recebidas ao exercer essa opção.

É preciso derrubar o conceito, martelado dia e noite pela publicidade automotiva, de que o seu sonho é ter um carro. Quem é você, homem da televisão, para dizer que meu sonho é ter um carro? Quem foi que me convenceu que a felicidade está trancada atrás de metal e vidros escuros, com o ar-condicionado ligado, em vez de estar num parque, numa praça, numa praia? Onde é que está escrito que a medida do meu sucesso é o quanto de dinheiro eu jogo fora para manter meu carro? Isso é medida de sucesso ou de burrice?

Para fazer o brasileiro se apaixonar pela bicicleta, precisamos abrir seus olhos e mostrar que o casamento atual não está dando certo. Não adianta ficar se enganando, fingindo que o casamento está perfeito: o carro está te traindo. Dizem que ele te faz feliz, que ele te dá a vida que todo mundo queria ter, mas ele te prejudica sem você perceber. Prejudica sua saúde, altera sua personalidade, rouba seu tempo e fica com boa parte do seu dinheiro. Chega um momento em que a única opção é o divórcio. E, quando esse dia chegar, você vai agradecer por ter conhecido a bicicleta.

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8 Respostas para “3×2 com Willian Cruz, marido ciclista

  1. O meu divórcio com o carro já veio, depois de mais de 10 anos de casamento. Hoje estou com a bicicleta (duas até, seria poligamia?) e estou muito mais feliz. Parabéns Willian, pela excelente entrevista!!

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  3. Pingback: noivos no pedal « casamentos e outras festas por ai…

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  5. Abordagem criativa para as soluções simples que são ditas e reditas na tentativa de sanar esse mal crônico paulistano. Parabéns Willian.
    Continuaremos em coro. É obrigação da multidão de madrinhas e padrinhos ciclopedestres.

  6. Pingback: Vá de Bike participará do Forum com Colville-Andersen | Vá de Bike!

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