3×2 com Felippe César, do Ciclo Urbano

A Prefeitura de Aracaju garante que a cidade e sua malha de ciclovias só perdem, proporcionalmente, para Rio de Janeiro e Teresina. O arquiteto e urbanista Felippe César, de 23 anos, presidente da associação Ciclo Urbano, não é tão otimista. Participante de primeira hora da Bicicletada local, ele ainda vê muitas dificuldades para o ciclista na capital sergipana.

Promover o uso da bicicleta como meio de transporte numa capital de menor porte, com menos atenção da mídia nacional, é mais fácil ou mais difícil?
Essa é uma pergunta difícil. Na verdade, não consigo classificar dessa forma. Eu vejo da seguinte maneira: partindo do princípio de que em uma cidade pequena nós conseguimos ter um poder de cobertura da população mais rápido nas ações pontuais, independente da mídia nacional, nós encontramos outra dificuldade, que é a do carro como um objeto além de meio de transporte. Quando se mora em cidades com poucos habitantes e praticamente todos se conhecem, o status “se faz necessário”, e o veículo em que você anda representa o que você é, é o seu “cartão de visita”, um modo de se mostrar “bem-sucedido”. Isso faz com que a bicicleta seja vista como um mero objeto de lazer ou de saúde, não como meio de transporte. Talvez seja por isso que, mesmo com o crescimento do uso da bicicleta em Aracaju, ainda vemos nos horários comerciais o perfil do ciclista homem e operário da construção civil ou autônomo. Porém, à noite e nos finais de semana, isso se reverte. A maioria dos ciclistas é de pessoas de classe média ou alta!

Aracaju se anuncia como “capital do ciclismo” e garante ter a terceira maior malha de ciclovias do país (62,6 km). Esse é um retrato fiel da realidade?
A última contagem que tive foi de quase 50 km, mas vale ressaltar que as ciclovias mais antigas estão em péssimo estado de conservação. Os números existem, mas a qualidade de muitas ciclovias já está comprometida. Ciclistas fazem reclamações constantes. Acontece de muitos deles usarem a pista por ser mais “confortável” do que a própria ciclovia.

O cliclista precisa de mais ciclovias ou de mais informação por parte de quem compartilha as vias com ele?
Se são mais ciclovias que farão com que as pessoas usem mais a bicicleta? Não, na verdade o que se precisa é criar condições viárias seguras para o ciclista, ter um trânsito cordial. Isso se consegue reduzindo os limites de velocidade, desenvolvendo soluções viárias que privilegiem os veículos não-motorizados e desprivilegiando os carros particulares. Deve-se pensar o pedestre como principal objeto de mobilidade, trabalhar na educação de trânsito continuadamente, com grande quantidade de informações, através de campanhas educativas, propagandas, jornais, etc. Além disso, os fiscais de tráfego devem começar a encarar o ciclista como parte do trânsito. Aqueles que não obedecem às leis devem ser abordados e conscientizados pelos agentes municipais, pois, ao contrário do motorista, o ciclista em nenhum momento de sua vida foi instruído sobre como se portar no trânsito. Essa abordagem inicial não deve ter penalidade ou multa, mas acredito que depois de dez anos de trabalho ininterrupto, e somente se toda a população tiver consciência dos direitos e deveres, podem sim ser aplicadas multas, como em países desenvolvidos que possuem ótima infraestrutura cicloviária, caso da Holanda e da Dinamarca.

Entre ciclovias e estacionamentos para bicicletas em toda a cidade eu prefiro os bicicletarios e/ou paraciclos! Acredito que incentivam muito mais do que as próprias ciclovias!

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3 Respostas para “3×2 com Felippe César, do Ciclo Urbano

  1. Muito boa a proposta de Felippe em tentar acabar com essa noção de cidade perfeita para o ciclista. Ele esqueçeu de dizer que somos a única cidade do mundo que temos ciclotrilhas, porque temos uma ciclovia que é melhor do que muias trilhas que encontramos na zona rural

  2. felippe é um cara que movimenta muito o ciclo ativismo em Aracaju, tem toda propriedade pra dizer o que disse. Eu como uma simples usuaria de bicicleta assino embaixo e ratifico que existem muitas problematicas sobre as ciclovias daqui, mas já há uma percepção consideravel para a bike. se é pra quem trabalha ou pra quem passeia não importa.. o que importa é que já são varios carros a menos e uma hora os governantes vão se sentir pressionados a melhorar a infra-estrutura para atender a todos.

  3. óia, gostei do blog, que não conhecia.

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