3×2 com Leandro Valverdes, cicloativista

Leandro Valverdes, 31 anos, é jornalista e músico, mas prefere se apresentar como cicloativista. Uma pergunta sua ao secretário de Transportes da cidade de São Paulo, durante evento em junho, deu a deixa para um compromisso que resultou na transferência do programa Pró-Ciclista da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para a Secretaria de Transportes, no último dia 2 de julho.

Acredita em mudanças efetivas com a transferência do Pró-Ciclista da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente para a Secretaria de Transportes? A cidade de São Paulo fica mais perto dos prometidos 100 km de ciclovias/ciclofaixas?
Acho que a transferência é uma vitória, ainda que simbólica. O tema que nos interessa é “bicicleta como meio de transporte”, não? Nada mais óbvio do que a Secretaria de Transportes de cada cidade responder por ele, como acontece no mundo todo, aliás. Aqui em São Paulo, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente pegou essa bandeira porque ninguém se interessava e nada era feito. Mas o Pró-Ciclista sempre teve as mãos amarradas e pouco podia fazer sem o aval de “técnicos” da Companhia de Engenharia de Tráfego, da Secretaria de Transportes, etc.

Com a mudança para a pasta de Transportes, o problema pode ao menos ser encarado de frente. E um exemplo do tamanho do desafio é a “malha cicloviária” que temos aqui. São singelos 30 km de ciclovias, dois terços dentro de parques, ligando o nada ao lugar nenhum… Eu até sugeriria que se mudasse o nome dessas rotas para algo como “ciclopasseio”, mas não são ciclovias. Agora, outra questão é se queremos ciclovia, se ela é a solução principal e a primeira coisa a ser buscada pelos cicloativistas… É uma discussão longuíssima e longe de ser consenso entre quem pedala.

Esse número de 100 km de ciclovias, algo jogado para a imprensa de forma irresponsável, certamente não vai sair do papel em 2009. Aliás, embora tenha sido prometido, acho que não existe nem no papel…

Pessoalmente, acho que o primordial a ser conquistado pelos ciclistas paulistanos é o “direito à rua”, o respeito por parte dos proprietários de 6 milhões de carros, que têm que compreender que a bicicleta, embora custe 1% do valor de seus automóveis, tem os mesmos direitos… que também é um veículo! Eu trocaria uns bons quilômetros de ciclovia por multas para quem não respeita o ciclista, tal como prevê o Código de Trânsito Brasileiro. Os artigos 201 e 220 simplesmente nunca foram aplicados desde que o CTB foi promulgado. O que primeiro difere a realidade brasileira da européia não é a falta de infraestrutura, mas sim a falta de respeito.

Como convencer uma pessoa de que não é loucura pedalar no trânsito de São Paulo?
Bom, só é loucura por conta do comportamento dos motoristas dos carros, ônibus, caminhões e motos. Todas as outras dificuldades citadas por quem tem preguiça de usar a bicicleta no dia-a-dia (clima, topografia, distância, falta de infraestrutura) são menores. Acho que loucura, e aí me aproximando até de um sentido clínico do termo, é a vida que boa parte dos paulistanos leva, com pelo menos duas sessões diárias de “enlouquecimento” dentro de seus automóveis, presos no trânsito. Sem nenhum pingo de futurologia, todos sabemos que a cidade vai parar, é uma questão meramente matemática, basta considerar esse número bisonho de mil carros emplacados todos os dias.

Assim, por bem ou por mal, as coisas vão mudar. Uma parte da classe média vai começar a usar mais o transporte público, e outra pequena parte talvez passe a olhar a bicicleta como uma possibilidade. Aliás, os ventos já estão mudando… Alguém chegar pedalando num lugar deixou de ser coisa de lunático, ou pior, de pobre. Até “excêntrico” está deixando de ser, e eu já ouvi algumas vezes pessoas dizerem: “Nossa, você veio de bicicleta? Que inveja, não pegou este trânsito.” Aí eu lembro ao interlocutor que a minha bicicleta não custou mais do que cinco tanques de gasolina de um carro…

Qual é o lugar mais estranho em que já pedalou?
Tive a sorte (ou o azar) de pedalar em lugares muito estranhos à realidade brasileira, principalmente em países europeus, em que a bicicleta é tratada como um veículo. Para quem pedala aqui, por exemplo, é estranhíssimo você ter o direito de parar no meio de uma rua, aguardando para fazer uma conversão à esquerda, e não ouvir xingamentos nem buzinadas do carro que está atrás. Ou então ver um motorista de ônibus esperar – sorrindo! – sua passagem antes de encostar num ponto.

Agora, uma vez tendo pedalado nas metrópoles brasileiras, você chega num lugar estranho desses, sobe numa Vélib e acha tranqüilo dar uma volta completa em pleno Arco do Triunfo, algo que um parisiense não faria…

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3 Respostas para “3×2 com Leandro Valverdes, cicloativista

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