Arquivo do mês: abril 2009

Yes, we can

Por alguma razão insondável, sempre que entro na sala com capacete e bicicleta a tiracolo, as pessoas perguntam se fui pedalando. O que se segue, quase sempre, é um diálogo agradável, embora um tanto repetitivo, que em algum momento inclui o comentário “que legal”. Um ou outro interlocutor vai além, conta que gostaria de ir de bicicleta e que já pensou no assunto, até concluir que é tudo muito complicado. Alguns mencionam dificuldades práticas, como roupas amassadas; a maioria alega temer o trânsito. Eu raramente argumento em contrário.

Sei que outras pessoas, até aqui em Brasília, vão de bicicleta ao trabalho. Mas o número ainda é pequeno, irrisório, para tanta gente que acha legal, gostaria de tentar e até já pensou seriamente no assunto. Talvez falte apenas um momento de iluminação. Ou talvez não falte nada.

Primeira vez

Nada como uma segunda-feira entre um domingo e um feriado para fazer a viagem inaugural de bicicleta ao trabalho. Como o teste havia acontecido sob condições extremamentes favoráveis, o dia enforcado (pelos outros) tornou a transição menos abrupta, ou seja, com menor risco de atropelamentos, freadas bruscas e acidentes em geral.

A ida foi surpreendentemente tranqüila. Levei pouco mais de 20 minutos da porta da minha casa ao estacionamento do trabalho. Segui pelo Eixo Monumental, sem emoção, saí em direção a W3, desci pela S2 e entrei por trás do Tribunal Superior Eleitoral. Pronto.

Favorecido pela seca, posso dizer, sem me limitar ao lugar-comum, que não deu nem para suar. Lavei o rosto, troquei de roupa e me apresentei ao serviço.

Como é que se atravessa na rotatória mesmo?

Como é que se atravessa na rotatória mesmo?

Minha criatividade se encarregou de tornar o retorno mais agitado. Resolvi pegar a S2 toda e voltar pelo Parque da Cidade. Acontece que a) a S2 até o Pátio Brasil é um inferno e b) o caminho pelo parque é mais longo em proporções lusitanas. Resultado: uma buzinada seguida de impropério, um carro fechando a passagem junto ao meio-fio e 40 minutos para um trecho que devia ter levado, no máximo, 30.

Impressões finais? Ciclovias cairiam bem em Brasília. Viver sem carro é possível. O trânsito, em qualquer intensidade e circunstância, é brutal.

E, claro, pedalar é bom demais.

Vaga certa

Fonte: TAM nas Nuvens

Assim como os automóveis, estacionar bicicletas em lugar seguro é um desafio constante. É aí que aparece o Biceberg. Inventado pela espanhola ma-SISTEMAS, Biceberg é um estacionamento subterrâneo de bicicletas, totalmente automatizado, que pode guardar com segurança 23, 56, 569 ou 92 bikes, juntamente a acessórios como capacetes e mochilas.

Esquema de funcionamento do Biceberg. Fonte: CoolTown Studios

Esquema de funcionamento do Biceberg. Fonte: CoolTown Studios

O mecanismo funciona como um imenso caixa eletrônico, que guarda as bicicletas e depois devolve-as ao nível do solo – o processo todo leva apenas 30 segundos, assegura a companhia. Enquanto as bibicletas estão guardadas, a Biceberg oferece 100% de garantia contra roubo.

Nota do blog: para se usar o Biceberg da Universitat Autònoma de Barcelona, paga-se uma taxa mensal de 12 euros, mais 0,30 ou 0,15 euro por hora.

Reconhecimento

Para conferir a viabilidade da minha resolução, fiz, na noite de sexta passada (feriado), uma prévia do trajeto casa-trabalho-casa. Favorecido pelo tempo ameno e pelas ruas vazias, superei o trecho QRSW-SAS com tranqüilidade, em meros 18 minutos. A volta, sem pausa para descanso e um tantinho mais longa, levou 28 minutos.

Em condições normais de temperatura e pressão, ou seja, sob o sol e no aperto do trânsito, a brincadeira deve ser mais complicada. Mesmo assim, eu e minha barriga gostamos do teste e ficamos animados para a primeira viagem oficial, provavelmente na próxima semana.

Estrela do espetáculo

Velocidade máxima de 305 km/h, mil cilindradas, câmbio de seis marchas, chassi de alumínio, 374 kg. Impressionante, não? Bem, essas são algumas características da Kawasaki Ninja ZX-10R. Minha nova companheira – de pedaladas – é muito mais modesta.

Prato do dia: dobradinha

Não esqueça a minha Dahon.

Vencer uns dez quilômetros por dia a bordo de uma Caloi Aspen de cinco anos e em péssimo estado nunca me pareceu uma boa idéia. Eu precisava de uma bicicleta mais leve, mais prática e mais confiável. Precisava, também, de uma oportunidade para adquiri-la sem ferir meu bolso de morte. E assim, com ajuda de uma providencial viagem, tornei-me um feliz proprietário de uma Dahon Speed D7.

Por não ter palavras para descrevê-la, vou direto ao famoso ponto nevrálgico: ela dobra.

Agora é ver se consegue dobrar minha preguiça.

Prólogo

Parque Nacional Torres del Paine, Chile, janeiro de 2004. Sentado no chão, refletindo sobre meu preparo físico risível, tomei uma decisão que mudaria minha vidaprovocaria uma expressão incrédula na minha mulher.

ASSIM QUE VOLTARMOS, VOU COMPRAR UMA BICICLETA.

E comprei. Um mês depois do insight chileno, eu já pedalava, quase todas as noites, pelas ruas pacíficas da Tijuca. Com o tempo, não ganhei fôlego, muito menos perdi a barriga, mas reencontrei um prazer esquecido numa infância distante: ser o motor do meu veículo.

Segui pedalando, às vezes lutando contra a preguiça, até 2006, quando troquei o Rio de Janeiro por Brasília. Desde então, minhas incursões ciclísticas pela capital federal podem ser contadas nos dedos. De uma única mão.

Brasília, Distrito Federal, janeiro de 2009. Sentado no chão, refletindo sobre meu preparo físico risível, tomei uma decisão que mudaria minha vidaprovocaria uma expressão incrédula na minha mulher.

VOU PASSAR A IR DE BICICLETA PARA O TRABALHO.

Mas antes eu precisava de uma bicicleta nova.